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Rússia: o regresso de Navalny e a estratégia da esquerda

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Três ativistas de esquerda, Ilya Budraitskis, Ilya Matveev e Kirill Medvedev, contam-nos a sua avaliação do caso Navalny e dos caminhos da oposição a Putin.
 

Esquerda.net, 4 de fevereiro de 2021

A Rússia tem tido semanas agitadas. Alexey Navalny apanhou um avião de volta para Moscovo e foi imediatamente preso na fronteira. No dia seguinte a sua equipa publicou um vídeo que ilustrava a corrupção de Vladimir Putin e apelava a todos os cidadãos para saírem às ruas contra o governo a 23 de janeiro. O que pensa a esquerda russa de tudo isto? Navalny certamente não lhe pertence, mas deve esta manter-se afastada dos protestos e da crise política que está a fermentar? Perguntámos a opinião de Ilya Budraitskis, Ilya Matveev e Kirill Medvedev. Nota da redação do EastLeft.

Ilya Budraitskis, historiador residente em Moscovo, escritor e co-autor do Political Diary podcast.

A prisão de Alexei Navalny no aeroporto Sheremetyevo de Moscovo a 17 de janeiro, minutos após o seu regresso à Rússia, não era apenas esperada, mas era também a única reação possível das autoridades russas. No início deste ano, depois das emendas constitucionais do Verão terem aberto a possibilidade de um poder pessoal ilimitado para Putin, o seu regime tinha entrado claramente numa nova fase: uma ditadura virtualmente declarada, baseada não no apoio passivo a partir de baixo, mas no poder repressivo.

Nesta nova configuração, não há espaço quer para a oposição liberal que foi marginalizada ou para os partidos do sistema que defendem uma “democracia dirigida”, que tinham colocado em causa o monopólio da Rússia Unida e criado oportunidades limitadas para expressar o descontentamento eleitoral.

A tentativa de assassinato de Navalny pelos serviços de segurança russos em agosto passado encaixa-se perfeitamente neste quadro. Do ponto de vista das autoridades, a principal ameaça colocada por Navalny é a tática do “voto inteligente” – a acumulação de todos os votos de protesto no candidato que tem mais hipóteses de derrotar os nomeados pela Rússia Unida. Numa situação em que o apoio ao partido dominante está em rápido declínio (correntemente não é mais do que 30%), o “voto inteligente” ameaça o cenário aprovado para as eleições parlamentares agendadas para setembro deste ano e, a longo prazo, a reeleição triunfante do próprio Putin para um novo mandato.

A ousada e precisa estratégia populista de Navalny está de facto apontada à criação de uma coligação de protesto com um lugar importante reservado para os representantes dos partidos do sistema (acima de todos os comunistas), que recusarão jogar com as regras do Kremlin e são capazes de conduzir campanhas eleitorais vivazes e ofensivas. Uma elemento-chave desta estratégia é a retórica de Navalny, na qual os temas da pobreza e da desigualdade social tomaram o lugar dos valores liberal-democratas. As muito mediatizadas investigações anti-corrupção que lhe garantiram popularidade têm impacto emocional numa audiência enorme (por exemplo, o seu último filme acerca do palácio de Putin ter custado 100 mil milhões de rublos [cerca de mil milhões de euros], tinha já sido visto 50 milhões de vezes até ao dia 22 de janeiro), uma vez que mostram diretamente a extrema estratificação da sociedade russa.

Num ambiente de eleições abertamente falsificadas e de pressão política sem precedentes, o protesto eleitoral só pode ter efeito se for apoiado por um movimento de massas não parlamentar nas ruas. E apenas tal movimento pode determinar o destino pessoal de Navalny hoje em dia – se centenas de milhares de pessoas em todo o país não defenderem a sua libertação imediata nas próximas semanas, seguramente enfrentará uma pena de prisão longa.

Do meu ponto de vista, participar em tal movimento – com o nosso próprio programa e reivindicações – é hoje a única oportunidade para a esquerda russa. Para além disso, é a esquerda que mais coerentemente pode expressar os sentimentos que estão a levar cada vez mais pessoas a protestar ativamente: desigualdade social, degradação da esfera social (particularmente da saúde, que se tornou dramaticamente notória com a pandemia), violência policial e ausência de direitos democráticos básicos (especialmente direitos laborais).

Ilya Matveev, investigador e professor de economia política residente em São Petersburgo e co-autor do Political Diary podcast(link is external).

Inicialmente, a decisão de Navalny de regressar à Rússia foi desconcertante. Que esperaria ele que acontecesse? O Estado tinha claramente decidido prendê-lo, apesar da pressão internacional (de qualquer modo depois da altamente mediatizada tentativa de assassinato, a reputação das autoridades russas dificilmente poderia ficar pior). A partir da prisão, Navalny poderia alegar superioridade moral mas não poderia ser um comunicador eficaz das investigações anti-corrupção e das campanhas políticas (a sua atividade mais importante).

A decisão de Navalny parecia quase irracional, um desafio teimoso. Contudo, muito rapidamente se tornou claro que havia aí um cálculo político. Quando foi preso, a sua equipa lançou um novo vídeo de investigação. Era único – a primeira grande investigação de Navalny que atingia diretamente Putin. O vídeo estava destinado a atrair uma grande audiência. O cálculo de Navalny era provocar uma crise política grave e imediata – tanto com a sua própria prisão quanto com esta nova e explosiva investigação. Esta crise deveria ter uma dimensão de protesto de rua, no sábado dia 23 de janeiro, várias cidades russas presenciariam manifestações não legalizadas, e uma dimensão eleitoral.

2021 é ano de eleições parlamentares na Rússia. Esta tem um sistema eleitoral misto – metade do parlamento é eleito na base da proporcionalidade, a outra metade em círculos uninominais. Apesar das eleições serem controladas de forma apertada e das falsificações terem atingido níveis sem precedentes durante o voto das emendas à Constituição em 2020, as eleições parlamentares podem ainda ser um problema para o regime.

A votação em lista partidária enfrenta o problema da profunda impopularidade da Rússia Unida, o partido dominante. E, na votação uninominal, o regime enfrenta o chamado “voto inteligente”, a tática eleitoral altamente avançada da Navalny. A crise política despoletada pela sua prisão e o seu novo vídeo anti-Putin atinge ambos os alvos – baixa ainda mais o voto na Rússia Unida e promove o “voto inteligente” nos círculos uninominais. Pode vir a ser um golpe duro para o regime, especialmente se combinado com os protestos de rua. Resumindo, o regresso de Navalny à Rússia foi uma aposta calculada. A bola está agora do lado dos membros da oposição.

Algumas palavras sobre este novo vídeo. Não apresenta muitos factos novos – o palácio pessoal de Putin surgiu pela primeira vez nas notícias em 2010. Nem sequer é significativo porque será um desafio direto a Putin. O que é marcante neste vídeo é que cria uma narrativa consistente. Nessa história, a característica que define Putin é a sua absurda, cómica, cobiça de riqueza material. De acordo com Navalny, Putin sempre foi guiado apenas por esta cobiça. Ele queria coisas quando era um agente do KGB na Alemanha, ele queria coisas durante a administração de Anatoly Sobchak de São Petersburgo nos anos 1990, ele queria coisas quando se mudou para Moscovo e acabou por se tornar presidente e ainda quer coisas, mesmo depois de ter construído um palácio de 1,5 mil milhões de dólares com o selo da dinastia Romanov na entrada.

Na minha opinião, esta não é uma descrição correta da mentalidade e motivação de Putin. Nem pode o regime russo ser reduzido a esta caricatura. Contudo, as decisões de Putin nos últimos anos (começando pelo seu regresso à presidência em 2012 e até ao cancelamento da limitação de mandatos para si próprio em 2020) tornou inevitável essa representação da sua vida e do seu trabalho. Putin só se pode queixar de si mesmo por ter sido criado este relato unidimensional da sua vida.

Kirill Medvedev, ativista do Movimento Socialista Russo, músico na Arkady Kots Band, editor da Zanovo-media.

Com o seu regresso, Navalny deu um passo importante para haver uma nova compreensão da política na Rússia e uma nova vaga de politização. Antes, havia uma bastante clara “divisão do trabalho” nos protestos: os ativistas corriam riscos motivados por um certo impulso cívico idealista, enquanto os políticos procuravam concretizar as suas ambições, muitas vezes meramente egoístas.

Navalny marcou uma linha que mostra que a política pode e deve ser ao mesmo tempo ousada e tecnológica. É importante que, nos novos vídeos, continua a desenvolver a imagem de Putin não como político mas como um funcionário corrupto que, tenho ganho enorme poder através de acordos obscuros, continua a agir da mesma velha maneira de um desonesto oficial pós-soviético com ligações ao FSB.

Mas quanto mais Navalny trabalha o tema da corrupção e dos consumos ostentatórios dos altos quadros do regime, mais os limites dessa sua retórica ficam expostos num país como a Rússia, exausto com a desigualdade e permeado por contradições de classe. Neste momento as coisas aparecem assim: Navalny mostra-nos os palácios dos governantes, jogando com o fogo com o ressentimento de classe, quando ao mesmo tempo (junto com os companheiros de armas) promete às empresas liberdade completa na Bela Rússia do Futuro. Dizem que o problema não são os palácios e as fortunas gigantes per se mas de onde vêm.

Mas é evidente que com o desenvolvimento desta linha populista deixará de ser fácil de separar os corruptos “amigos de Putin” daqueles que Navalny chama “homens de negócios honestos”, mas cujas fortunas são igualmente imensas e geradas da mesma forma em esquemas ilegais nos anos 1990 e 2000 e, claro, na sobre-exploração dos trabalhadores.

Tudo isto abre grandes oportunidades para uma política de esquerda que, como uma combinação engenhosa de coragem e racionalidade possa produzir uma onda de descontentamento muito mais poderosa e um programa de mudança bem mais coerente do que o ecletismo populista de Navalny.

Texto traduzido para o A L’Encontre a partir do original publicado no LeftEast. Traduzido para o Esquerda.net por Carlos Carujo.

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