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Santiago Alba Rico: O grande, o pequeno e o belo

· Comunicação,Sem Fronteiras,Cultura,Vale a pena ler

As novas tecnologias suprimiram a refração. Não comportam uma mudança na direção da luz, não admitem a obliquidade, não entram em um meio mais denso do que elas próprias. Constituem, em suas próprias entranhas, o próprio meio em que o olho e seus objetos nascem e morrem, constantemente. Somos sua criação, seus reféns, seu combustível. Não são uma “técnica” humana, mas a crisálida de outra espécie, sem coisas grandes, nem coisas pequenas.

Santiago Alba Rico, Ctxt, 05-03-2021. A tradução é do Cepat.

O que é mais belo? O grande ou o pequeno? Não se deve tomar partido. O belo é que as montanhas sejam grandes e as libélulas pequenas. As catedrais grandes, as cerejas pequenas. O belo é que tanto as coisas grandes como as pequenas, cada uma ao seu modo, fiquem visíveis diante de nossos olhos. Deixemos que as coisas grandes sejam grandes e as pequenas, pequenas, sem querer subverter as relações que existem entre elas. Esta hierarquia sem vencedores se chama “espaço”. De todas as provas da existência de Deus, é a única que pode comover as secas convicções de nós ateus. Deus, que é invisível, só pode ser “o maior” se nele cabem um elefante e uma colherzinha.

A maior coisa que existe é a chamada “cúpula celeste”, ou seja, a imensidão do universo, na qual as estrelas, sóis mortos, nos parecem alfinetes. Por meio do telescópio, nós nos aproximamos do distante. Por outro lado, não vemos os micróbios, embora estejam próximos de nós, grudados em nós e dentro de nós. Por meio do microscópio, nós nos distanciamos a medida necessária para que se tornem visíveis. Podemos dizer que, através do telescópio, as coisas imensas, ao se aproximar, ficam pequenas, e que, através do microscópio, as coisas pequeninas, ao se distanciar, ficam grandes.

Em relação ao telescópio e o microscópio, o que dizer da tela de nosso celular, que cabe na palma de nossa mão e que, mais ainda, é do tamanho de nossa mão? Ao contrário do telescópio, obriga a inclinar a cabeça. Ao contrário do microscópio, diminui as coisas maiores. Abismados, na palma de nossa mão, podemos contemplar, sim, as montanhas, as catedrais, os planetas, mas olhando para baixo, não para cima.

Convém dizer a verdade: esse “para baixo” minúsculo, onde cabe o mundo inteiro e de onde, ao mesmo tempo, procede a sua luz, é hoje a nossa “cúpula celeste”. A palma de nossa mão – digamos – é a nossa cúpula celeste, cujo imediatismo adimensional suprimiu a diferença entre o grande e o pequeno. Tudo agora – planetas e ervilhas, elefantes e colherzinhas – é do mesmo tamanho. Nem grande, nem pequeno: indiferente.

Também suprimiu a diferença entre o distante e o próximo: todas as coisas estão, o tempo todo, imediatamente aí. A terrível distorção dos objetos que aparecem em nossas telas não deriva, com efeito, do fato de que não possamos tocá-los, mas de algo muito mais inquietante: de não podermos nos distanciar deles. Não podemos nos livrar de sua proximidade definitiva e monstruosa. Como um cavalo não consegue se livrar das moscas que o atormentam.

Como não sentir nostalgia às velhas salas de cinema? Sabia-se que eram pequeninas em relação à “cúpula celeste”, mas almejavam reproduzir suas condições de recepção. Queriam que em suas telas as coisas grandes tivessem as dimensões maiores possíveis.

Expressão de uma certa grandiloquência infantil ou hybris prometeica, houve uma época, claramente “americana”, em que as salas precisavam ser cada vez mais vastas e as telas cada vez mais amplas. Minha infância foi presidida pela grande invenção do cinemascope. Além disso, todas as coisas – grandes e pequenas, montanhas e estrelas – no cinema surgiam da escuridão, erguia-se a cabeça para o céu noturno, onde surgia o Himalaia um pouco menor do que realmente é, mas gigantesco em relação ao nosso corpo, e apareciam Ingrid Bergman ou Clark Gable, a mulher amada, o homem amado, muito maiores do que realmente eram.

Por outro lado, a luz, como a do sol, vinha do alto de nossas costas, para iluminar o que nossos olhos viam graças a ela, independente de nossa vontade e sem qualquer controle de nossa parte. No mundo das novas tecnologias – ai – essa luz desapareceu e com ela o mundo que iluminava: o próprio mundo. Agora, tudo acontece como se o caminho que buscamos, de noite, com uma lanterna, estivesse na própria lanterna.

O cinema era o céu. Não significa o mesmo ver as coisas no céu do que na palma da mão. Não significa o mesmo ver as coisas erguendo a cabeça do que a inclinando. Não significa o mesmo ver as coisas à luz da lâmpada do que no interior da lâmpada. Existem coisas feitas para a mão e coisas feitas para a distância. Existem coisas que pegamos e coisas que nos sobressaltam.

Na palma da mão temos que pousar, o quê? Temos que pousar outra mão, uma libélula, uma cereja. Uma bola de gude. Um punhado de arroz. Ao passo que as montanhas, as estrelas, as catedrais, o corpo do amado, o bebê adormecido, ou são muito grandes e estão fora de nós ou não podemos medir sua beleza, nem nossa emoção. Ou nos intimidam ou é como se não existissem. Nada mais nos intimida na efervescência infinita de nosso celular.

Somos ainda incapazes de avaliar a importância metafísica desta transformação, as consequências antropológicas desta segunda morte de Deus: que o céu agora esteja abaixo e não acima, que nele o elefante e a colherzinha tenham o mesmo tamanho, que não possamos nos distanciar desses corpos que, ao mesmo tempo, não podemos tocar, que os objetos não tenham que ser retirados da escuridão, porque estão absorvidos desde o início no olho que nos olha.

Queremos nos enganar deduzindo da resistência às novas tecnologias o misoneísmo dos detratores e a bondade de todas as invenções. Os mais reacionários também se opuseram à imprensa, à fotografia e ao cinema! Alivia-nos pensar que tudo o que o ser humano inventou beneficia por igual a humanidade, e que todas as reservas, portanto, podem ser desconsideradas como resistências ao progresso geral.

Esquece-se que não foram os mesmos, nem pelas mesmas razões, os que desconfiaram da imprensa, da fotografia ou do cinema e, agora, das novas tecnologias. E se esquece que, do mesmo modo que de todo bem é possível fazer um mau uso, também de todo mal, por outro lado, é possível fazer um bom uso.

Não se deve avaliar os artefatos humanos pelo que permitem, mas pelo que obrigam a fazer, de modo que são bons ou maus a partir do marco de percepção que impõem, não pelas vantagens particulares que se obtêm nele. A imprensa, generalizando a experiência letrada, foi um bem que se usou, ao mesmo tempo, para propagar o fanatismo religioso. A fotografia, renovando a fronteira entre ver e olhar, foi um bem que, às vezes, serviu para fazer chantagem. O cinema, democratizando a cúpula celeste, foi um bem que os governos utilizaram para a pior propaganda.

A imprensa, a fotografia e o cinema nos obrigaram a revisar nossa relação com o grande e o pequeno e a repensar nossa inscrição no tempo. Mas podíamos nos defender de seu mau uso, pois seus efeitos refratavam em um mundo independente, no qual existiam muitas mais coisas do que livros, fotos e filmes, e em que os livros, as fotos e os filmes, ao entrarem nele, se desordenavam sem parar.

As novas tecnologias, ao contrário, são um mal do qual, às vezes, é possível fazer um bom uso. Obrigam-nos a entregar toda a nossa vida (o trabalho, o lazer, o sexo, a própria intimidade) e, em troca, permitem que conversemos com o namorado ou o filho ausentes e continuar lendo, ouvindo música, assistindo filmes, em caso de pandemia. Mas são um mal, não porque nos obrigam a também revisar a nossa relação com o grande e o pequeno e a repensar a nossa inscrição no tempo, mas porque não podemos nos defender delas, porque suas determinações não refratam no mundo, mas o substituem.

As novas tecnologias suprimiram, sim, a refração. Não comportam uma mudança na direção da luz, não admitem a obliquidade, não entram em um meio mais denso do que elas próprias. Constituem, em suas próprias entranhas, o próprio meio em que o olho e seus objetos nascem e morrem, constantemente. Somos sua criação, seus reféns, seu combustível. Não são uma “técnica” humana, mas a crisálida de outra espécie, sem coisas grandes, nem coisas pequenas.

 

Às vezes, é verdade, ainda continuamos vivendo na nossa, mas não estou certo de que, exceto por uma catástrofe que não devemos desejar, ainda possamos retornar ao mundo exterior. Alguns de nós ainda se recordam dele, o mundo, e enquanto damos uma conferência online e publicamos um tuíte, sentimos falta desses deuses, grandes e tolerantes, nos quais cabiam, ao mesmo tempo, um elefante e uma colherzinha.

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