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Tensão em alta na Bolívia

· Sem Fronteiras

Postergação do anúncio de resultados da eleição do domingo põe em xeque não somente qual é o verdadeiro veredicto das urnas, como também o que pretendem os próceres da direita e da ultradireita.

Ana Carvalhaes, La Paz, 18 de outubro de 2020

LA PAZ - Uma hora depois de fechadas as urnas da segunda eleição presidencial realizada em um ano na Bolívia, os meio de comunicação e os porta-vozes dos principais candidatos avaliavam que o 18 de outubro tinha sido um dia tranquilo, uma jornada eleitoral “normal”. Como é de sua tradição histórica, a Bolívia estava novamente renovando o significado de “normal”: a eleição foi mantida para esta data graças a um levante popular, há dois meses, contra mais uma tentativa de adiamento por parte do governo interino. Este, por sua vez, alçou-se ao poder de foram bastante anormal, com o respaldo de todas as forças sociais e políticas de oposição ao MAS e a Evo Morales.

Com a justificativa da pandemia, o pleito de hoje aconteceu sob a égide da proibição de circulação de transporte público e privado durante todo o dia (desde as 16h da véspera), com mais de 20 mil policiais nas ruas das grandes cidades. Houve filas imensas para um processo de votação lento, com distanciamento social, álcool gel e espera de mais de uma hora, em pé no sol a pino ou no frio intenso. As tropas do Exército se fizeram presentes inclusive e locais de votação – numa militarização do processo fora do comum mesmo para o originalíssimo país. E, para completar a paisagem de excepcionalidade, as eleições transcorreram com a proibição das candidaturas do ex-presidente Evo Morales e do ex-chanceler Diego Pery.

De fato, tudo aconteceu como planejado pelo Órgão Eleitoral Plurinacional (OEP), que coordena os Tribunais Eleitorais Departamentais (a Bolívia é dividida em nove departamentos) e do qual fazem parte tanto representantes do governo interino, como do governo anterior e dos candidatos à Presidência – o que quer dizer que todas essas características anormais foram resultantes de acordo do qual participou o MAS.

Muito perto do horário de fechamento das urnas (17h na região andina), o presidente da OEP anunciou a decisão de não anunciar resultados preliminares, mas apenas o resultado final – em mais uma iniciativa acordada para evitar inquietações e, principalmente, mobilizações de partidários do MAS e seu candidato, Luís Arce - à frente em todas as pesquisas. Até mesmo o anúncio de pesquisas de boca de urna foi abortado pela OEP.

A tensão que deu origem a esse conjunto de medidas se explica pela tremenda polarização política e social que vive a Bolívia desde antes do golpe de outubro de 2019. Depois de três mandatos e quase 14 anos no governo, durante os quais primeiro enfrentou (2006-2009), depois tentou manter neutralizado o empresariado do agronegócio das províncias da Media Luna (Santa Cruz, Beni e Pando, ), Evo e seu governo viram ressuscitar com força essa direita com vocação neo-nazifascista e regionalista e base social crescente, capitaneada por Luis Fernando Camacho. Ao mesmo tempo, a direita com verniz (apenas verniz) cosmopolita, representada pelo ex-presidente tampão Carlos Mesa, se aproveitava da crise econômica e da insistência de Evo em se candidatar pela terceira vez – em contradição com a Constituição e com o resultado do plebiscito realizado em 2016 – para minar o prestígio do governo nas crescentes classes médias urbanas.

Tudo isso foi ingrediente para o golpe de 2019, ao qual a aguerrida base social do MAS enfrentou com todas as armas de que pode dispor, inclusive cerca de 40 vidas. Segundo denuncia N., uma dirigente barrial de El Alto (região metropolitana de La Paz), masista de primeira hora, “aqui estamos dispostos a dar a vida pela democracia e uma Bolíva dos de baixo”. O problema, segundo ela, foi a “rosca” (algo como a turma, ou camarilha) em torno de Evo , “o pessoal convidado ao governo, que substituiu os ministros do movimento social”. Apesar das críticas, N. não tem dúvida de que vai às ruas, com todo El Alto, contra qualquer indício de fraude ou manobra para diminuir a verdadeira maioria do MAS e de Evo.

As próximas 24 ou 48 horas prometem muita emoção.

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Ana Carvalhaes é jornalista e membro da direção nacional da Insurgência. Compõe a delegação do PSOL à Bolívia, para acompanhar o processo eleitoral.

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