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Tudo que você precisa saber sobre a Floresta Amazônica

O etnobotânico Mark Plotkin analisa a importância e as ameaças para a Amazônia

· Ecologia,Sem Fronteiras,Últimos artigos

Rhett Butler entrevista Mark Plotkin, Mongabay, 25 de maio de 2020

Maior floresta tropical da Terra, a Amazônia é o maior repositório de biodiversidade do planeta, abriga o maior número de povos indígenas isolados, e é lar do rio mais volumoso do mundo. Porém, a Amazônia também encara perigosas ameaças.

O novo livro de Mark Plotkin, um dos principais especialistas em etnobotânica do mundo e co-fundador da ONG Amazon Conservation Team, The Amazon: What Everyone Needs to Know (Amazônia: o que todo mundo precisa saber) resume de forma sucinta os desafios colocados para a região que é o motor que produz chuvas que sustentam economias regionais, sequestram mais de 100 bilhões de toneladas de carbono, e ajudam a prevenir que furações atinjam a costa leste da América do Sul .

Ainda assim, a Amazônia encara várias ameaças terríveis, que incluem o aumento do desmatamento e das políticas anti-ambientais no Brasil, a fragmentação e degradação generalizada, e os efeitos das mudanças climáticas que cientistas alertam que podem transformar o ecossistema da floresta tropical em algo muito mais árido. A destruição em larga escala da Amazônia pode ser devastadora para o planeta inteiro.

Um novo livro, The Amazon: What Everyone Needs to Know (Amazônia: o que todo mundo precisa saber, em tradução livre) resume de forma sucinta esses assuntos, mas também faz uma contextualização importante, elucida os mitos e os motivos pelos quais nós devemos nos importar com o destino da Amazônia. Ele foi escrito por Mark Protkin, um dos principais especialistas em etnobotânica do mundo e co-fundador da ONG Amazon Conservation Team, que trabalha com comunidades indígenas para preservar as florestas na Amazônia e no norte da Colômbia. No começo dos anos 2000, Plotkin e a Amazon Conservation Team foram pioneiros no uso de mapeamento com GPS, Google Earth e outras tecnologias para ajudar aldeias a assegurar seus direitos à terra e a proteger a floresta dos seus ancestrais.

O que motivou você a escrever este livro neste momento?

O livro não foi originalmente uma ideia minha. A Oxford Press publica uma série bem reconhecida intitulada “What Everyone Needs to Know” [“O que todo mundo precisa saber”, em tradução livre]. Eles escolhem um tópico importante – temas que vão desde cyber segurança até mudanças climáticas e a Venezuela – e então contratam um especialista para explicar o assunto em um formato de pergunta e resposta. O objetivo é produzir um conteúdo acessível e confiável para uma ampla audiência. A Oxford me contactou sobre este projeto há dois anos e eu prontamente aceitei.

Grande parte do material disponível sobre a Floresta Amazônica varia entre o ligeiramente errado ao totalmente incorreto. É por isso que tantas pessoas, inclusive eu, confiam no Mongabay para obter informações confiáveis. Espero que este novo livro tenha um papel semelhante.

O que você aprendeu enquanto pesquisava para o livro?

Que descobriram caranguejos que vivem na copa das árvores na floresta. Que a cidade brasileira de Santarém está localizada em cima de uma área de Terra Preta [solo escuro e fértil fruto de ocupações humanas ancestrais na região Amazônica] de cerca de 5 km². Que existem três espécies de enguias elétricas na Amazônia e não apenas uma. Que a Amazônia abriga mais espécies de peixe do que os rios Congo, Mississippi e Nilo combinados.

Apesar da terrível investida do “desenvolvimento” e da destruição, a Amazônia continua sendo um lugar de mistério e admiração. Enquanto eu terminava o livro, uma equipe internacional de pesquisadores encontrou uma árvore quase três metros mais alta que qualquer outro espécime conhecido na Bacia do Jari, no Brasil. Em um mundo bem-conhecido em que os recordes tendem a ser quebrados por polegadas ou segundos, isso é realmente impressionante! E ninguém que estuda a Amazônia – nenhum zoólogo, botânico ou etnobotânico – acredita que restam poucas coisas novas para serem aprendidas ou descobertas.

Qual o principal aprendizado que você espera que as pessoas tirem do seu livro?

Que ainda há muito a ser aprendido e estimado na Amazônia. Veja, enguias elétricas têm sido estudadas desde os dias de Linnaeus, há mais de 250 anos. Mas apenas no último ano nós determinamos que 1) na verdade existem três espécies na Amazônia, ao invés de uma; e 2) que enguias elétricas caçam em grupos, não apenas individualmente. E além disso, elas estão sendo estudadas para ajudar a desenhar pequenas baterias – que podem ser implantadas – para alimentar dispositivos médicos no corpo humano. Existe tanto ainda para ser descoberto e ganho, mas nós renunciaremos a essas opções se nós continuarmos nesse caminho de ganância e destruição.

Quando eu entrei na área ambiental, no final dos anos 70, alguns diziam que nós não poderíamos nos preocupar com florestas tropicais enquanto não lidássemos com a superpopulação. Agora, você tem pessoas dizendo que nós podemos ignorar as florestas tropicais porque nós temos que focar nas mudanças climáticas. Mas é tudo a mesma coisa! Superpopulação impulsiona a destruição da floresta que impulsiona as mudanças climáticas.

E ainda existe outra história relacionada tanto com o livro quanto com as manchetes. O coronavírus – COVID-19 é a principal história do dia. No livro, eu discuto morcegos e como anticoagulantes presentes na sua saliva podem conduzir a novos tratamentos para prevenir ou tratar derrames. As manchetes estão cheias de histórias que ligam esse novo e letal vírus aos morcegos. O que muitas vezes é ignorado é que nós não contraímos essa doença sendo mordidos por morcegos – nós pegamos essa doença quando morcegos (e/ou outro hospedeiro intermediário) foram espremidos em jaulas fétidas em mercados de animais vivos, e o vírus eventualmente achou seu caminho até os humanos. Nosso fracasso em respeitar e administrar adequadamente a Mãe Natureza nos deu uma doença que está custando trilhões de dólares e incontáveis mortes. Eu recentemente publiquei um editorial sobre isso no Los Angeles Review of Books: ‘Coronavírus e Conservação: Prevenindo a Próxima Pandemia’.

Existe um possível lado positivo desta terrível situação: morcegos carregam múltiplos vírus. Nós devemos interromper nossas práticas abusivas, que são indescritivelmente cruéis aos animais (especialmente morcegos, que comem toneladas de mosquitos e servem como importante polinizadores). O que nós devemos fazer é cuidadosamente estudar morcegos para aprender como eles conseguem se defender dessas doenças letais. Nós também precisamos parar de cortar a floresta, porque isso impulsiona as mudanças climáticas e deixa as pessoas em contato ainda maior com patógenos mortais. Embora as terríveis histórias de vírus sobre as quais todos lemos (COVID, SARS, Ebola) tenham origem na África e na Ásia, o Dr. Chris Walzer da WCS (apresentado em uma matéria recente do Mongabay) me diz que existe um igual número de vírus na Amazônia. Lembra do antigo comercial da margarina Parkay, cujo slogan era “Não é bom enganar a Mãe Natureza”? Bem, é muito mais estúpido e autodestrutivo abusar da Mãe Natureza!

Você tem trabalhado no reino da conservação por um longo tempo. Quais as grandes diferenças que você tem visto no setor nas últimas três décadas?

O grande biólogo E. O. Wilson recentemente escreveu que a forma mais eficaz de “salvar o mundo” seria garantir que metade dele está protegido. O que pouca gente percebe é que – na Amazônia brasileira, por exemplo – esse já é o caso, com 25% do território em unidades de conservação e 25% em Terras Indígenas. O problema (obviamente) é que essa proteção (em muitos parques, em particular) existe apenas no papel.

Eu sou frequentemente questionado: na Amazônia, o copo está meio cheio ou meio vazio. É claro – por definição, qualquer copo que está meio cheio está meio vazio! O ponto é que existem muitas iniciativas bem-sucedidas de conservação e conquistas, mas várias (senão a maioria) estão ameaçadas por uma série de fatores: policiais mal-orientados, desigualdade social, falta de engajamento da sociedade, etc. Além disso, é essencial notar que muitos desses mesmos desafios existem ao redor do mundo, inclusive aqui nos EUA.

A resposta simples para a pergunta é que muito mais pessoas estão conscientes da importância da conservação da Amazônia, ao mesmo tempo em que muitas outras ameaças estão pressionando-a de todos os lados.

As queimadas na Amazônia atraíram muita atenção no último ano. Você acha que essa atenção levará a mudanças políticas significativas no Brasil?

Como todos os países, o Brasil é um lugar complicado com diferentes círculos eleitorais. Certamente, as queimadas na Amazônia de 2019 (que são tema de um capítulo no meu novo livro) trouxeram o tema do desmatamento na Amazônia para uma audiência global de uma forma que não se via desde o último documentário brilhante de Adrian Cowell “Década da Destruição”, de muitas décadas atrás. E muitos colegas e amigos brasileiros, de acadêmicos a líderes indígenas, estão inflexivelmente em oposição à destruição da floresta para abrir espaço para mais pastos e agronegócio. Como nos Estados Unidos – onde nós estamos vendo ações vergonhosamente anti-ambientais – é difícil promover mudança quando o líder do país vê a administração ambiental inteligente como algo a que deve se opor.

Há uma crescente discussão sobre a Amazônia estar se aproximando de um ponto crítico, onde a floresta tropical pode fazer a transição para um ecossistema mais seco. O que o mundo pode fazer para evitar esse destino?

A resposta é óbvia, mas difícil de implementar. O que deve ser feito? Proteger as áreas protegidas. Respeitar os direitos dos indígenas. Reflorestar. Concentrar as atividades de desenvolvimento em terras degradadas, que existem aos montes na Amazônia. Acredito firmemente que existem terras desmatadas e degradadas suficientes para cultivar toda a comida, criar todo o gado e produzir toda a madeira necessária!

Há muito tempo ouvimos que as culturas e o conhecimento indígenas estão desaparecendo mais rapidamente do que as florestas. Esse ainda é o caso na Amazônia?

Um dos maiores sucessos dos movimentos ambientais – em parceria com colegas indígenas – tem sido transmitir bem-sucedidamente o conceito de que os indígenas foram e são (em maioria) os conservacionistas originais. Começando a cerca de 30 anos atrás, pessoas puderam ver em imagens aéreas ou de satélite que as Terras Indígenas tendem a ter maiores e melhores coberturas florestais do que os territórios adjacentes.

Entretanto, na medida em que povos indígenas se tornaram mais integrados com o mundo exterior – obrigado, Whatsapp! – houve um aumento da necessidade de dinheiro – para celulares, computadores, iPads, e tantos outros. A necessidade de dinheiro é compreensível, mas põe uma pressão adicional nos nossos colegas indígenas para de alguma forma monetizar sua vida e seus territórios de um jeito nunca visto antes (na Amazônia, pelo menos).

E porquê devemos nos importar com essas culturas que estão sendo perdidas?

Entre outras analogias, indígenas têm sido chamados de “canários nas minas de carvão” ambiental. No clássico filme de Alan Ereira sobre os Kogis (From the Heart of the World, 1990), há 30 anos, eles estavam perguntando ao mundo exterior (a quem eles se referiam como “Pequenos Irmãos”) o que eles estavam fazendo desde que as geleiras estavam derretendo. Nós ignoramos isso por nossa conta e risco – as mudanças climáticas teriam sido mais fácil, menos dispendiosas e menos perturbadoras de lidar se nós tivéssemos os escutado antes!

Ninguém aqui no Amazon Conservation Team é simplista o suficiente para acreditar que os indígenas em qualquer lugar são nobres selvagens que sempre querem o melhor e sempre fazem a coisa certa, do ponto de vista ambiental ou qualquer outro. Ao mesmo tempo, todos nós que tivemos a sorte de visitar, morar ou trabalhar com povos tradicionais na Amazônia fomos inevitavelmente atingidos por como essas pessoas conhecem e fazem bom uso da floresta, seja para fazer e usar um arco ou identificando qual abelha poliniza qual orquídea. Quer proteger a floresta tropical? Ajude a proteger as pessoas que vivem lá e proteger tanto a floresta quanto o modo de vida tradicional dessas comunidades.

Como você escolheu a foto de capa do seu novo livro?

Uma das razões pelas quais eu decidi fazer esse projeto é que a meta da Oxford Press é levar a informação para o maior número de pessoas possíveis, mas mantendo o preço do livro baixo: quando foi a última vez que você comprou um livro novo por 17 dólares? Essa abordagem, entretanto, implica em concessões, uma delas é não ter fotos com o texto. Como alguém que tem fotografado na América do Sul por mais de três décadas, eu sabia desde o começo que seria extremamente difícil transmitir toda maravilhosidade da Amazônia sem usar fotos. A única exceção seria a foto da capa.

Imagine então o desafio: como você retrata/captura a Amazônia em uma única imagem? Peixe? Floresta? Sapo? Fogo? Fungo? Várzea? O que eu devo mostrar? Eu decidi usar uma imagem do nordeste da Amazônia que eu tirei no último dia da minha primeira grande expedição lá, em 1982. A foto mostra o rio Sipaliwini [no Suriname] emergindo da floresta tropical intocada e passando por uma comunidade indígena na qual eu estou.

Existem muitos “easter eggs” incorporados nesta foto. Na extrema esquerda – na floresta primária – você pode ver as flores amarelas de uma árvore de Tabebuia, que é altamente valorizada para diversos fins medicinais. Em primeiro plano, você vê as embaúbas, um indicativo da recente presença de jardins indígenas. Um arco-íris aparece acima da floresta no canto superior direito – mas se você olhar com cuidado, poderá ver que é um arco-íris duplo. E – finalmente – se você olhar com ainda mais atenção, verá crianças indígenas brincando, sob o duplo arco-íris!

Reproduzido de IHU-Unisinos, 27 de maio de 2020

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