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A era das pandemias

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Nurit Bensusan, Instituto Socioambiental, 12 de novembro de 2020

É interessante pensar que o fim do mundo talvez seja um longo processo: nada de meteoro ou de explosões atômicas. Uma pandemia aqui, um evento climático extremo ali, menos comida, mais uma pandemia, secas catastróficas, menos comida ainda, mais uma pandemia, sede, fome, guerras, mais secas, mais pandemias, mais inundações... Enfim, a consolidação de um planeta hostil à nossa espécie.

Em relatório recém-lançado, a Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IBPES, na sigla em inglês) chama o período em que estamos entrando, com a pandemia de Covid-19, de a “Era das Pandemias”. Diante dos dados expostos pelo relatório, o nome vem bem a calhar. Alguns deles, para dar o tom:

- Estima-se que haja 1,7 milhões de vírus que ainda não foram descritos em mamíferos e aves. Desses, entre 540 mil e 850 mil teriam a capacidade de infectar humanos.

- Os mais importantes reservatórios de patógenos com potencial pandêmico são os mamíferos (em particular morcegos, roedores e primatas) e algumas aves, em especial as aquáticas, assim como os animais criados para a produção de proteína animal, como porcos, galinhas, camelos, etc.

- O risco de pandemias está aumentando rapidamente com a emergência de mais de cinco doenças novas em humanos a cada ano. Qualquer uma dessas tem potencial para se espalhar e se tornar uma nova pandemia.

- O risco é aumentado exponencialmente pelas modificações antropogênicas, tais como a perda de biodiversidade, a simplificação das paisagens e a degradação de ecossistemas.

No quesito “modificações antropogênicas” que aumentam exponencialmente o risco das pandemias, é que estão as ideias, tão bem implementadas por aqui, para apressar o fim do mundo. A aceleração do desmatamento e da degradação do ambiente, o descompromisso com o combate à crise climática e o desrespeito à diversidade social, cultural e de formas de estar no mundo têm sido nosso cotidiano.

Não há dúvida alguma que o atual governo brasileiro parece ter pressa para chegar ao apocalipse. A situação geral do planeta, porém, não é muito diferente. Ao invés de uma janela de oportunidades, a pandemia revelou-se um espelho quebrado cujo reflexo tememos ver. Uma das estranhas consequências da situação é que o inaceitável mundo em que vivíamos, transbordante de desigualdades, racismo, ansiedade, depressão e violência, parece ter se tornado não apenas tolerável mas até mesmo desejável. Não apenas não enxergamos outras possibilidades de futuro, como ansiamos por voltar a nossa vida pregressa.

Pulsão de morte ou confiança na tecnologia?

Curiosamente, o relatório do IBPES não surtiu grandes efeitos. Assim como os números crescentes de mortes por Covid-19, de hectares desmatados na Amazônia ou queimados no Pantanal, de toneladas de carbono lançadas na atmosfera ou de plástico no mar. Trata-se, será, de uma pulsão de morte da nossa espécie ou uma confiança excessiva nas soluções tecnológicas?

Além das ideias para apressar o fim do mundo que já conhecemos, algumas novidades têm chamado atenção. Uma delas é a mortandade de elefantes em Botswana, o lugar com a terceira maior população de elefantes africanos. Nos primeiros meses deste ano, 330 elefantes morreram envenenados por fontes de água contaminadas por cianobactérias, provavelmente uma consequência das mudanças climáticas.

Outra é a situação das praias de Kamtchaka, localizadas na costa leste da Rússia, local que faz a festa dos surfistas. Ali, no começo de setembro, as pessoas começaram a apresentar queimaduras na pele, vômitos e dificuldade para respirar. De lá para cá, milhares de animais marinhos já morreram.

As hipóteses ligadas à poluição não foram comprovadas, apesar dos níveis de elementos derivados do petróleo, de fosfato e de mercúrio estarem muito acima do aceitável. As pesquisas conduziram à conclusão que se trata de uma proliferação exacerbada de algas, que emitem toxinas e exaurem o oxigênio da água, causada pelas mudanças climáticas.

Ambiente hostil e egoísmo

Além de transformarmos o planeta num ambiente hostil para nós mesmos, estamos contribuindo para o rápido desaparecimento da biodiversidade. Se o apelo ético da responsabilidade de carregar tantas mortes nas costas não move a nossa espécie, o egoísmo deveria fazê-lo. É justamente a complexidade da paisagem, composta por várias espécies em múltiplas relações, que garante a contenção das zoonoses, impedindo que essas doenças que vêm dos animais silvestres cheguem aos humanos.

 

Essas moléstias são muitas e se tornam mais comuns à medida que vamos destruindo os ecossistemas e degradando os serviços que eles nos oferecem. Vale lembrar que a maioria das enfermidades humanas infecciosas que surgiram nas décadas recentes teve origem na vida silvestre e 65% de todos os patógenos humanos descobertos, desde 1980, foram identificados como vírus zoonóticos. Entre elas, estão a Zyka, a Febre do Rift Valley, a gripe aviária, a H1N1 e muitas outras.

 

A esse cenário, já bastante preocupante, soma-se o descongelamento acelerado do Ártico e do Permafrost, área de milhares de quilômetros quadrados de solos congelados que circunda o Ártico. Esse fenômeno começa a causar uma injeção de mais gases de efeito estufa na atmosfera, o encontro de animais que não conviviam antes e a possibilidade da emergência de novos e velhos patógenos, presentes nos restos mortais de espécies de outros tempos, como o mamute, ou de pessoas de outros séculos, como as vítimas de uma epidemia de varíola do fim do século XIX. Tudo isso aponta para um maior risco de novas doenças e de pandemias.

 

Mundo sem nós

Alguns livros e filmes já tentaram delinear como seria o mundo sem nós. Aparentemente, a Terra se recuperaria bem do estrago que estamos fazendo e talvez nem demorasse muitos milhares de anos para isso. A única coisa que sobraria, uma lembrança de nossa passagem pelo cosmos, seriam os plastiglomeratos, um material que pode ser descrito como um fragmento rochoso que reúne grãos de areia, detritos plásticos e materiais orgânicos, como conchas, partes de corais e madeiras, amalgamados por algo que já foi um plástico derretido. Sua origem remete a fogos causados por humanos, em geral para queimar lixo. Foram encontrados primeiro na praia Kamilo, no Havaí, em 2014, mas de lá para cá já foram identificadas em Bali, na Califórnia, na ilha de Madeira e em Ontário, no Canadá.

 

O relatório do IBPES aponta que ainda podemos escapar da Era das Pandemias, pois temos acumulado bastante conhecimento para traçar caminhos que nos permitam prever e evitar novas crises sanitárias. Isso, segundo o relatório, inclui localizar possíveis origens geográficas de novas pandemias, identificar hospedeiros- chave e patógenos com mais probabilidade de emergir e demonstrar como as mudanças ambientais e socioeconômicas estão relacionadas com a emergência de doenças. O relatório também traz um conjunto de mecanismos para tornar isso possível. Alguns estão ligados a um reforço de instrumentos multilaterais, como o estabelecimento de um conselho intergovernamental de prevenção de pandemias que, além de promover a cooperação entre governos, trabalharia com as três convenções da Eco -92 (Mudanças Climáticas, Biodiversidade e Combate à Desertificação), para desenvolver uma abordagem chamada de One Heath (uma saúde, em inglês). Trata-se de pensar uma abordagem que conecte saúde humana, saúde animal e questões ambientais.

 

Há várias outras recomendações tanto ligadas ao financiamento de atividades que degradam o meio ambiente como relacionadas com o consumo humano. O inusitado é que nada disso é novo. Sabemos de tudo isso e sabemos há muito tempo. Sabemos que essa relação predatória que cultivamos com a natureza tem um preço e que, fatalmente, ele seria cobrado.

 

A conclusão do relatório é que as transformações necessárias a evitar pandemias podem parecer de difícil implementação, caras e de impacto incerto. A isso, os autores contrapõem os custos de enfrentar uma pandemia e afirmam que esse caminho trará benefícios para a saúde, a biodiversidade e as nossas economias. Apesar de não ser algo novo, o caminho para evitar o fim do mundo é apontado, descrito e sinalizado. Resta saber se vamos, como sempre, fazer mais do mesmo, ou se vamos agarrar o touro pelos chifres, sobreviver, viver e deixar viver, aqui e agora, neste planeta.

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