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Foi o perfil centrista de Biden que favoreceu a derrota de Trump?

Tudo indica que a vitória do democrata se deveu, além do repúdio a Trump, ao movimento negro e às pautas defendidas pela ala progressista, que renova o partido

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Eduardo d´Albergaria

BRASÍLIA - Em 2016, uma ala progressista no interior do Partido Democrata dos EUA foi inaugurada por Bernie Sanders, para dar sustentação ao seu nome nas prévias do partido. Sua candidatura, avaliada num primeiro momento pela grande mídia como sem qualquer viabilidade, conquistou vitórias em estados importantes e postergou em muito o processo de prévias que, acreditavam muitos, seria rapidamente decidido em favor de Hillary Clinton.

Um dos argumentos mais utilizados pela campanha de Hillary para derrotar Sanders foi o de que uma candidatura com pautas progressistas, numa eleição geral, acabaria derrotada pelo Partido Republicano.

Mas foi Hillary Clinton quem acabou derrotada por Trump, algo que nenhuma liderança democrata imaginava ser possível.

Em 2018, nas eleições conhecidas como midtearm, o impulso progressista inaugurado por Sanders continuou a dar frutos. Com maior destaque, Alexandria Ocassio-Cortes ( AOC), até então garçonete, foi capaz de derrotar nas prévias um mega figurão do partido Democrata, que já representava havia 40 anos o Distrito 14 de Nova York - que abrange uma área dos populosos subúrbios do Queens e do Bronx. Ela venceu ainda o republicano Anthony Pappas nas eleições gerais e se tornou a deputada federal mais jovem da história americana.

Naquele ano, os Democrat Socialists of America (DSA), movimento político socialista que participa de eleições na legenda do Partido Democrata - conseguiu ainda eleger mais de 100 representantes em todo país e colocou na Câmara dos Representantes (equivalente à dos Deputados no Brasil), além de AOC, Ilhan Omar de Minessota, Ayanna Pressley de Massachussets e Rashida Tiab de Michigan. Esse grupo de mulheres não brancas, abaixo de 50 anos de idade e de esquerda, passou a ser conhecido por “The Squad” (o esquadrão).

Nas prévias democratas de 2020, a ala democrata mais progressista se fez representar por duas candidaturas: Bernie Sanders e Elisabeth Warren (mais moderada que o primeiro). Novamente, o argumento da suposta inviabilidade das ideias e propostas progressistas foi trazido à tona pelos moderados e conservadores do partido. Biden foi escolhido candidato, quando a pandemia do coronavírus encurtou as prévias que até aquele momento vinham apontando vitória do ex-vice-presidente.

Mas mesmo fora da chapa presidencial, as pautas progressistas apareceram nos debates, e foram especialmente exploradas por Trump em sua propaganda de que Biden seria socialista. Essas pautas são:  Medcare for all (saúde pública para todos), Defund de Police (desinvestir nos departamentos de polícia e investir no policiamento comunitário) e Green New Deal (um plano de investimentos para que os EUA transicionem para uma sociedade de energia mais limpa).

Atacar essas pautas foi também uma tentativa de desestimular progressistas a saírem de casa para votar num candidato que não defende suas ideias. Uma das maiores apreensões de Biden era de que a ala progressista não apoiasse (fizesse campanha) uma candidatura vista como símbolo de um passado que bloqueia a renovação do partido.

Biden se distanciou da agenda progressista e tentou cortejar com republicanos descontentes com o estilo agressivo e desonesto de Trump. Apesar dos milhões de dólares em comerciais que tentaram atrair esse eleitorado, de acordo com a pesquisa de boca de urna da Edison Research, 93% dos cidadãos registrados no Partido Republicano votaram em Trump - uma proporção ainda maior do que na eleição de 2016.

A campanha de Trump conseguiu ainda somar 8 milhões de votos à sua votação anterior - crescendo até mesmo entre eleitores negros e latinos, mesmo se apresentando como um presidente negacionista diante de duzentos e cinquenta mil mortes pela Covid-19, num contexto em que a economia se deteriorou levando ao desemprego massivo e à perda de qualidade de vida.

Ainda que Biden tenha recebido uma votação recorde, a promessa de que uma candidatura centrista seria capaz de trucidar Trump nas urnas, sustentada até o dia das eleições, acabou não se confirmando. O Partido Democrata pode ter fracassado em conquistar uma maioria no Senado, mesmo tendo injetado dezenas de milhões nas campanhas contra republicanos que buscavam recondução. Os democratas perderam espaço ainda na Câmara dos Representantes - apenas dois anos depois da vitória de 2018, que lhe garantiu maioria.

A liderança tradicional democrata correu então para responsabilizar a ala progressista e o movimento Black Lives Matter pelo resultado aquém do esperado.

A esse ataque, os progressistas rebatem com o argumento de que as campanhas realizadas pela ala tradicional do partido são arcaicas, centram suas estratégias na compra de comerciais de TV e envio de materiais por correios, bem descritas na série The Politician, em que uma senadora do Estado NYC busca mais uma recondução ao cargo.

Afinal, foram essas mesmas fragilidades das campanhas democratas mainstream (dos figurões que controlam a máquina) que possibilitaram a ala esquerda, nos últimos dois anos, desbancá-los nas prévias do partido.

E foi apostando nas mobilizações de rua e de redes que a ala esquerda garantiu não só a reeleição das quatro deputadas da ala esquerda, como a conquista de novas posições. The Squad Is Here to Stay, and it’s only getting bigger! (O esquadrão está a aqui e só fica maior!)

Dessas novas vitórias, a a que chama mais atenção é a da ex-moradora de rua e ativista do movimento Black Lives Matter, Cori Bush, que se tornou a primeira mulher negra a representar Missouri, depois de derrotar nas prévias democratas uma dinastia de homens negros conservadores, de uma mesma família, que dominava a representação do 1o distrito do estado desde 1969. E do socialista negro Jammal Bowman, eleito pelo 16º Distrito de Nova York, depois de desbancar um representante democrata que tinha 16 reconduções ao cargo.

Todos os parlamentares democratas que defendem o programa de saúde pública universal (Medicare for All) ou o Green New Deal em swing districts - distritos com disputas equilibradas entre Republicanos e Democratas - conseguiram ser reconduzidos ao cargo.

O mesmo resultado exitoso também se deu em nível local. Candidatos identificados com o DSA conquistaram cinco cadeiras na Assembleia e duas no senado estadual de Nova York. Em Filadélfia, dois candidatos apoiados pela DSA foram eleitos para a Assembleia estadual e um para o Senado. Minnesota também teve um senador estadual socialista eleito. Em Montana, outro para a Assembleia estadual. E mais outras tantas vitórias em conselhos locais: Austin (Texas), San Francisco, Washington DC, Los Angeles. Sem falar nos diversos promotores públicos progressistas eleitos, dando mais força para as campanhas de reforma do sistema de Justiça estruturalmente racista.

A força das posições progressistas também se fez sentir nos referendos votados em nível estadual. A Flórida, mesmo tendo votado em Trump, aprovou uma resolução aumentando o salário mínimo para 15 dólares. O mesmo aconteceu em Portland (Oregon) e Maine, que votaram ainda medidas de controle dos aluguéis, contra a possibilidade de reconhecimento facial e em favor de um Green New Deal local. O Colorado também derrubou uma medida que restringiria os direitos reprodutivos das mulheres.

Enquanto Oregon votou para tachar os superricos, para financiar a universalização da educação infantil. O estado votou ainda para descriminalizar diversas drogas, incluindo pequenas quantidades de heroína, cocaína e metanfetamina - um passo importante para o movimento contra o encarceramento em massa.

Dakota do Sul, Montana, Arizona, e Nova Jersey legalizaram o uso adulto de maconha, enquanto Mississippi aprovou o uso medicinal. Washington, DC, legalizou ainda psicodélicos.

E o estado conservador de Mississipi aprovou de forma maciça a mudança de sua bandeira estadual, retirando dela um símbolo confederado (da Confederação de Estados do Sul, que foi à secessão para defender a escravatura no século XIX). O símbolo era um resquício da escravidão no sul do país.

Mesmo os jornalistas americanos das TVs alinhadas com a ala centrista do partido democrata reconhecem que a participação da coalizão jovem e etnicamente diversa da ala progressista ”trouxe energia para o processo político” e ajudou a eleger Biden. Os 94% dos votos em Detroit e o comparecimento três vezes maior na Georgia, por exemplo, devem ser creditados à mobilização do movimento negro.

O resultado entre os mais jovens em que, segundo Circle da Universidade Tufts, teve um crescimento de 8% no comparecimento, parece sugerir o sucesso da mobilização dos progressistas.

Essa eleição foi também uma vitória da diversidade - outra pauta sustentada pelos progressistas: pela primeira vez uma mulher trans foi eleita senadora estadual e dois homens negros foram eleitos para assembleias estaduais. Enquanto o simbolismo maior da eleição foi o da primeira mulher e negra na vice-presidência da Repúblic.

E será essa coalizão étnica e culturalmente diversa entre centristas e progressistas que precisará enfrentar desafios colossais e talvez uma maioria oposicionista no Senado: uma pandemia que segue batendo números recordes nos EUA (220 mil mortos), a crise econômica e o desemprego provenientes, a crise ambiental, e a tensão racial que demanda uma reforma do sistema de justiça.

A ala majoritária do Partido Democrata vai considerar a agenda progressiva ou tentará voltar para o programa implementado até 2016? Vão tentar mais uma vez a plataforma política que abriu caminhos para a eleição de Trump?

As vozes à esquerda saíram confiantes de que somente uma plataforma popular que busque atrair novos setores e energize a base do Partido Democrata é caminho para enfrentar a violenta oposição trumpista que se levantará. A esquerda passa a ter mais espaço na institucionalidade que em qualquer momento anterior da história do país. E os recentes protestos massivos contra a violência policial parecem dar força aos que não acreditam que os Estados Unidos são um país inexoravelmente conservador e que a maioria da população do país pode apoiar uma plataforma baseada em justiça racial, redistribuição de renda e defesa do meio ambiente.

No caso provável de que os Republicanos venham a manter o controle do Senado, o país será governado por uma coalizão entre MacConnell (líder republicano na casa) e Biden, que se baseará num chamado constante pela austeridade. A ala progressista vai aceitar isso?

Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

(*) Eduardo d´Albergaria é cientista social, especialista em Políticas Públicas e estudioso dos Estados Unidos.

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