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Alexandre Araújo: negacionismo não é igual a ceticismo

Nem tudo o que parece é. Bicho-pau não é graveto. Focinho de porco não é tomada. Negacionismo não é ceticismo.

· Ecologia,Vale a pena ler

Alexandre Araújo Costa, Piseagrama n.14, 2020
 

Manter uma postura cética é uma obrigação de quem trabalha com ciência. A dúvida é (ou deveria ser) o estado inicial natural de qualquer pessoa diante de uma situação ou fenômeno desconhecidos. Em não havendo evidências suficientes a favor de uma determinada explicação para uma situação ou fenômeno, a postura de ceticismo é a mais correta. De início, o cientista, ao rejeitar a crença sem evidências, é, antes de tudo, um cético.

Mas um senso crítico e questionador nada tem a ver com o papel de eterno contestador das evidências. A partir de determinado acúmulo de conhecimento sobre o fenômeno em questão, certos questionamentos deixam de ser razoáveis. Ceticismo científico não é vinil arranhado. O avanço das ciências se deu graças à combinação de postura cética e questionadora, que induz à pesquisa, à investigação e à busca de respostas, com a disposição em aceitar as respostas; com base em evidências – ainda que contrariem a vontade, o desejo e a opinião pré-concebida de quem quer que seja, até mesmo do próprio pesquisador.

Negacionismo não é ceticismo. Na verdade, há um antagonismo entre os dois. Enquanto o verdadeiro cético parte da dúvida, sem preconceitos em relação a qualquer hipótese, mas assume uma posição quando as evidências aparecem, aceitando-as, o negacionista parte de uma “certeza”, da sua “verdade”, pré-concebida a partir de desejos, vontades, valores de natureza ideológica. Preso a essa “certeza”, o negacionista recusa-se a checar de maneira aberta e honesta as evidências que com ela se choquem. Enquanto o ceticismo implica desapego, o negacionismo se agarra irredutivelmente a um ponto de vista original, geralmente vinculado a alguma motivação alheia ao terreno da ciência.

A hipótese de que a atmosfera terrestre poderia exercer algum papel de controle sobre a temperatura planetária foi formulada na década de 1820 pelo francês Jean Baptiste Fourier. Podemos atribuir a ele a ideia do que mais tarde viria a ser conhecido como “efeito estufa”. Três a quatro décadas depois, Eunice Foote e John Tyndall mostraram, em laboratório, que há gases que interagem com o calor, ou seja, emergiram aí evidências “duras” a favor da ideia de Fourier. Hoje trata-se de um experimento trivial, que pode ser repetido em laboratório com montagens bastante simples e que demonstra que há gases, como o CO2, o vapor d’água, o metano e o óxido nitroso, entre outros, que absorvem radiação infravermelha.

Em paralelo a essas descobertas, avançavam pesquisas em radiação térmica. Não muito tempo depois, o esloveno Jozef Stefan descobriu a relação entre radiação emitida e temperatura: a irradiância aumenta com a temperatura (na verdade, é proporcional à quarta potência da temperatura absoluta, isto é, na escala Kelvin). Da mesma época é a lei de Wien, que diz que o comprimento de onda de máxima emissão é inversamente proporcional à temperatura absoluta. Essas relações são ambas empíricas e precedem a Lei de Planck, pontapé inicial da Física Quântica. Ou seja, a história original da Ciência do Clima está intimamente ligada à própria revolução científica do final do século XIX e início do século XX. São irmãs, com raízes comuns, a física quântica, por trás dos equipamentos eletrônicos de hoje em dia, e a física do clima, que mostra como um planeta aquece se aumenta a concentração dos gases de efeito estufa.

Rejeitar o entendimento de como os gases de efeito estufa interagem com a radiação, como chegam a fazer alguns negacionistas, constitui rejeitar uma parte enorme do escopo da chamada física moderna, que representou um avanço substancial no nosso entendimento do mundo, com a introdução da teoria da relatividade e a física quântica. É absolutamente impossível, a não ser por ignorância extrema ou desonestidade óbvia, negar seletivamente a ciência do clima e aceitar esse escopo que, por sinal, está por trás de um sem número de tecnologias que hoje usamos repetidas vezes em nosso dia a dia.

Na esteira das medidas de Foote e Tyndall e das relações empiricamente descobertas por Stefan e outros físicos, veio Svante Arrhenius (o mesmo dos ácidos e bases da química do ensino médio). Com base no conhecimento do final do século XIX, ele tentava explicar as recém-descobertas evidências de períodos glaciais no passado da Terra. Ele estimou que reduzir pela metade a concentração de CO2 atmosférico levaria a um resfriamento de 4°C a 5°C, mas a consequência imediata desses cálculos era a de que a duplicação da quantidade de CO2 implicaria em um aquecimento de mesma magnitude.

Esse cálculo de Arrhenius deu origem ao conceito ainda hoje utilizado de “sensibilidade climática de equilíbrio”, que é definida como a resposta do sistema climático, em termos de variação de temperatura, à duplicação da concentração de CO2. O que há de especial nessa conta, para além das conclusões que dela viriam – inclusive de potencial influência antrópica sobre o clima – é que, em 1896, com lápis e papel, Arrhenius não ficou longe do limite superior da estimativa atual obtido com todos os recursos técnicos disponíveis, de modelos sofisticados em supercomputadores a registros paleoclimáticos. (A sensibilidade climática é estimada, no 5º relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, como sendo de até 4,5°C, sendo aproximadamente 3°C o valor mais provável.) O trabalho de Arrhenius é comparável ao feito de Eratóstenes de Cirene, o grego que estimou o raio da Terra dois séculos antes de Cristo, com duas varetas e uma carroça.

De Eratóstenes a Arrhenius, aprendemos não só que a Terra não é plana, mas também que é recoberta por uma atmosfera que controla sua temperatura a partir da concentração de CO2.

Evidentemente o trabalho de Arrhenius foi contestado, como acontece com toda ideia científica revolucionária. As ideias de que mudanças na concentração de um gás tão minoritário seriam capazes de produzir grandes alterações no clima e, principalmente, de que a humanidade teria poder para fazer isso, não eram fáceis de aceitar… há mais de cem anos! Knut Ångström, por exemplo, teceu críticas ao trabalho de Arrhenius afirmando que o efeito do CO2 já estaria “saturado”. Arrhenius replicou duramente em mais de uma publicação, apontando os erros de Ångström. Todo esse debate se deu em cima de hipóteses testáveis e nunca em cima de achismos ou ideologias.

E o que aconteceu quando tais ideias foram testadas? A ciência deu razão a Arrhenius. Em 1931, Hulburt mostrou que o CO2 disparava o que conhecemos hoje como “feedback do vapor d’água”, retroalimentação climática fundamental. Telegraficamente, o CO2 aquece a atmosfera, que passa a conter mais vapor d’água e, como este é um gás de efeito estufa, amplifica o efeito do CO2.

Aceitam-se as evidências, passa-se à próxima questão. É o que se espera do método científico. Havia obviamente grandes lacunas no trabalho de Arrhenius que viriam a ser preenchidas depois. Não havia, por exemplo, pistas sobre o que poderia disparar glaciações ou deglaciações e fazer o CO2 variar, até os trabalhos de Milutin Milankovitch, cientista sérvio, que propôs que variações cíclicas nos parâmetros da órbita terrestre de excentricidade, obliquidade e precessão serviriam de marca-passo climático na escala de dezenas a centenas de milhares de anos.

Milankovitch também enfrentou resistência na aceitação de suas teses, até porque o impacto no balanço de energia da Terra por conta desses ciclos é muito pequeno para explicar variações tão grandes no clima como as que ocorrem entre glaciações e deglaciações. Hoje sabemos: Milankovitch e Arrhenius tinham, ambos, parte da verdade em mãos. O primeiro descobriu o gatilho. O segundo, o mecanismo amplificador.

Enquanto todo esse debate acontecia, desde 1880, quando foi estruturada uma rede de observações de superfície em escala mundial, dados estavam sendo coletados. E em 1938, Guy Callendar, novamente com um enorme esforço braçal (não havia planilhas de Excel naquele tempo), encontrou as primeiras evidências nesses dados de que o planeta estava aquecendo. Ele estimou que, naquele momento, parte do aquecimento observado era natural, mas atribuiu corretamente a outra parcela ao efeito antrópico. As previsões de Arrhenius, de mais de 30 anos antes, já estavam sendo confirmadas, antes mesmo da 2ª Guerra Mundial. Callendar, no entanto, subestimava o ritmo das mudanças nos anos seguintes, pois não previu o crescimento exponencial do uso de combustíveis fósseis, que acelerou em muito as emissões, e tinha ilusões de que, pelo menos em parte, elas pudessem ser benignas.

Este, aliás, é outro “debate” já totalmente superado. Hoje sabe-se que, em áreas como a agricultura, a tendência geral é que os problemas associados ao aumento da temperatura e da evapotranspiração potencial, bem como os desequilíbrios associados ao ciclo hidrológico, superam em muito quaisquer possíveis benefícios que o aumento da concentração de CO2 atmosférico possa ter sobre a fotossíntese. Os “argumentos” negacionistas difundidos hoje em dia ou são mentiras deslavadas ou ideias há muito superadas pelas evidências científicas.

Isso demonstra que o negacionismo climático na verdade é pura anticiência. A ciência avança; não fica girando em falso, ignorando o corpo de evidências teóricas e empíricas. Na lógica dos negacionistas climáticos, ainda estaríamos discutindo o “éter” em vez de abraçar a Relatividade de Einstein, ou talvez defendendo a geração espontânea.

De Fourier até o IPCC, muito avançamos: observações diversas, satélites, supercomputadores com modelos, testemunhos paleoclimáticos. São dois séculos de conhecimento científico acumulado. Enquanto os negacionistas rodam em epiciclos, hoje sabemos que o sistema climático terrestre depende de maneira fundamental de um balanço de energia, e uma condição próxima do equilíbrio requer que a quantidade de energia saindo do sistema, na forma de calor, seja equivalente à quantidade de energia que entra, vinda do Sol.

Qualquer processo físico que interfira significativamente nesse balanço ocasionará uma mudança no clima. Analisando-se todos os possíveis fatores, há consenso de que podem ser descartados os fatores naturais (mudanças de atividade solar, vulcanismo, mudanças cíclicas nos parâmetros orbitais, variabilidade interna de longo prazo). Ao mesmo tempo, verificamos que a mudança na concentração de gases de efeito estufa que se iniciou com o período industrial e se intensificou muito após a segunda metade do século XX, é capaz de produzir um desequilíbrio energético estimado em 2,29 W/m² (o que, multiplicado pela área do planeta, nos dá uma energia maior que a explosão de 18 bombas de Hiroshima por segundo).

A causa fundamental, portanto, do aquecimento observado no clima terrestre, sem margem para dúvidas, é a emissão desses gases pelas atividades humanas. Destacam-se a queima de combustíveis fósseis, agravada por desmatamento, emissões de agropecuária etc. As consequências, boa parte delas já perceptível e com a devida aferição estatística, incluem uma maior frequência de eventos extremos (ondas de calor, tempestades severas, incêndios florestais), perda de massa das geleiras e mantos de gelo, elevação do nível do mar, comprometimento de ecossistemas terrestres e marinhos, extinção em massa de espécies.

Se você é de fato cético, uma dica: anote as frases ditas ou escritas por negacionistas em suas falas e textos. Guarde a imagem dos gráficos mostrados. Não quero que ninguém “acredite” em mim, sem checagem das fontes originais. Apenas demando que o ceticismo não seja seletivo e que um rigor igual seja aplicado a todo mundo.

Não se deixe levar pela confusão sobre tempo e clima. Examine as estatísticas de extremos de frio e de calor. Elas demonstram que a frequência de extremos de calor é, hoje, bem maior do que a frequência de baixas temperaturas: cinco vezes, para ser mais preciso. A partir dos anos 1980, a quebra de recordes de alta temperatura passou a ser mais de duas vezes mais frequente que a quebra de recordes de baixa. Hoje em dia, a proporção é de 5 para 1, podendo chegar a 10 para 1 até mesmo antes de 2030, como estimaram os cientistas Dim Coumou, Alexander Robinson e Stefan Rahmstorf em artigo de 2013.

Quando alguém afirmar que não há evidências físicas da influência humana no clima, verifique o que é alegado no conjunto de publicações da literatura especializada. Você verá que a comunidade científica examinou à exaustão todas as possíveis influências naturais sobre o clima, da atividade solar ao vulcanismo, passando pelas mudanças na órbita da Terra, e que nenhum desses fatores tem contribuição importante para o aquecimento observado do sistema climático. Se olharmos para essas evidências, não há como restarem dúvidas razoáveis. É esta a conclusão a que já chegaram cientistas reconhecidos de órgãos internacionais de excelência.

“O aquecimento global é inequívoco”, concluíram os pesquisadores do IPCC, o órgão da ONU dedicado a estudar o clima. “As atividades humanas, especialmente as emissões de gases de efeito estufa, são a causa dominante do aquecimento observado desde meados do século XX”, afirma o relatório produzido em 2017 pelo Programa de Pesquisa de Mudanças Globais estabelecido pelo Congresso dos Estados Unidos.

Quando te disserem que “o clima está sempre em mudança”, lembre-se de que toda mudança climática do passado teve uma causa, em grande parte das vezes relacionada a alterações na concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. E, não, o planeta não esteve mais quente durante a Idade Média. Embora na Europa esse intervalo de tempo tenha sido marcado por temperaturas relativamente mais altas do que em outros momentos históricos, do ponto de vista global a realidade era outra: a Terra estava, em média, mais de 0,2°C mais fria do que no período 1961-1990.

Da série de mitos espalhados pelos negacionistas climáticos, um dos mais famosos é o de que “é o Sol”, e não o aumento da concentração de gases de efeito estufa, o fator principal por trás do aquecimento observado do sistema climático. Pelo fato de o Sol ser a fonte primária de energia para praticamente tudo que acontece no clima terrestre, esta é uma afirmação que parece fazer sentido. Mas, como todo mito negacionista, não resiste a um exame mínimo.

As variações observadas de temperatura e de insolação seguem comportamentos bem diferentes do final do século XIX para cá. As variações na irradiância são dominadas por ciclos de 11 anos e a amplitude desses ciclos, embora tenha crescido no final do século XIX e início do século XX, deixou de aumentar e até decresceu nas últimas décadas. Já a temperatura, principalmente desde meados do século XX, segue tendência de aquecimento praticamente contínua.

Além disso, os valores de energia envolvidos não fecham a conta. As variações na radiação solar entre mínimo e máximo ficam em torno de apenas 0,1% do total. De modo que o máximo desequilíbrio energético que as variações solares podem produzir é da ordem de 0,235 W/m². Este é um valor muito pequeno, cerca de dez vezes menor do que a forçante radiativa associada aos efeitos antrópicos no presente somados. Tão pequeno, que equivale à perturbação no clima associada ao CO2 existente em 1920 (303 partes por milhão ou ppm), em comparação com os níveis pré-industriais (280 ppm). Seria necessário que o clima da Terra fosse muito mais sensível do que é (felizmente, não é o caso), para que aquecesse tanto assim em resposta às variações solares.

Também é popular o mito sobre o vulcanismo. Na negaciosfera, podemos encontrar desavisados afirmando que o ser humano não poderia alterar o clima do planeta, porque “os vulcões emitem muito mais CO2”. Será que essa informação procede? Basta checar na literatura científica. Em um artigo publicado na revista da American Geophysical Union, o cientista Terry Gerlach, atuante no “Observatório de Vulcões” do U.S. Geological Survey, faz uma revisão das estimativas de emissões vulcânicas. Os resultados que ele encontrou são da ordem de 0,18 a 0,44 bilhões de toneladas de CO2/ano. Por sua vez, segundo dados do CDIAC (Carbon Dioxide Information Analysis Center), as emissões humanas são de 9,855 bilhões de toneladas de carbono/ano, o que, fazendo o devido cálculo (cada 12g de carbono correspondem a 44g de CO2), nos dá mais de 36,1 bilhões de toneladas de CO2/ano, somando a queima de petróleo, gás e carvão e a produção de cimento.

Ainda em resposta às muitas mentiras que os negacionistas contam, não, nem sempre “CO2 é bom para as plantas”. Embora seja a matéria-prima da fotossíntese, as plantas precisam também de água e nutrientes para se desenvolverem e não sobrevivem a temperaturas excessivamente altas. Uma dica excelente para checar estes e inúmeros outros mitos espalhados pelos negacionistas é o site da internet Skeptical Science.

A pergunta que talvez emerja aqui é: o que levaria essas pessoas a falsificarem tanto a realidade e a atacarem tanto a ciência? Que intenção têm ao espalharem desinformação e confundirem propositalmente a opinião pública?

As larvas negacionistas não brotaram espontaneamente da carne podre. Houve quem colocasse os ovos. O negacionismo é um “produto de laboratório” de corporações e think tanks; que há mais de 20 anos mimetizaram a estratégia da indústria do tabaco, que sabotou por um longo tempo as medidas de restrição ao fumo. O padrão é exatamente o mesmo: para defenderem seus lucros, atacam o consenso científico recrutando algumas figuras do meio acadêmico e da mídia, confundem e desmobilizam a opinião pública, agindo como verdadeiros mercadores da dúvida. No surgimento do negacionismo climático, nada foi feito de maneira aleatória. Estamos falando de um caso pensado.

Existe farta documentação que evidencia não apenas os vínculos entre o negacionismo e interesses econômicos escusos, mas inclusive que se tratou de algo planejado, com tática e orçamento. Há, por exemplo, documentos internos da Exxon, empresa multinacional de petróleo e gás sediada nos Estados Unidos, que apontam que havia um “Plano de Comunicação da Ciência do Clima Global”, cujo propósito era reformatar completamente o debate público sobre a questão climática que então se iniciava, após a criação da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (a UNFCCC) e a realização da Eco-92 e das primeiras Conferências das Partes (COPs), processo que viria a desaguar no (muito tímido) Protocolo de Kyoto.

Segundo a própria Exxon, esse plano só seria vitorioso quando o “cidadão médio” viesse a questionar o que eles chamavam de “conhecimento convencional”, ou seja, a Ciência do Clima, para aderir à narrativa negacionista. Ou, pelo menos, quando esse cidadão viesse a ter dúvidas. Idem para o conjunto do empresariado e para a mídia, que deveria, segundo o plano, mostrar os “dois lados”, isto é, abrir espaço tanto para a ciência quanto para a sua negação deliberada e arquitetada com fins espúrios de preservar os lucros da indústria fóssil. O documento mostra toda a vilania da coalizão liderada pela Exxon, ao colocar como um dos seus objetivos fazer com que quem defendesse o Protocolo de Kyoto parecesse, perante o público, como “fora da realidade”.

Mas o negacionismo climático de hoje tem diferenças relevantes daquele de duas décadas atrás, antes do advento das redes sociais. As redes criaram um ambiente sem precedentes, no qual a possibilidade de produção e replicação de informação cresceu imensamente, seja ela fundamentada ou não. O negacionismo, assim, voltou a ganhar fôlego, afastando o público da arena dos debates urgentes que deveriam estar sendo feitos: de contenção das emissões e de como preparar a sociedade para lidar com riscos e impactos, reduzindo sua vulnerabilidade.

Ao semearem confusão, os negacionistas cumprem o papel deletério que sempre lhes coube: manter a sociedade presa a falsos debates, travar ações e soluções. E, na medida em que grupos da ultradireita em ascensão se apropriam do discurso negacionista (o que inclui, além de Trump e da alt-right, nos EUA, os neonazistas alemães do AfD e grupos como a TFP no Brasil), eles o amplificam e o misturam a discursos de ódio, racismo e xenofobia.

Ninguém propõe que os negacionistas sejam “censurados”. Eles, como quaisquer pessoas, podem dizer a sandice que quiserem (com a exceção dos discursos de incitação ao ódio). O fato de terem sistematicamente se dirigido à mídia e ocupado as redes sociais é o próprio exercício desse direito.

Mas ciência não se faz com qualquer “opinião”. Não se pode querer que o método e a produção da ciência sejam abandonados para acomodar o desejo desse punhado de manipuladores. É preciso seguir as regras do debate científico, que se dá por meio da literatura revisada, com o escrutínio de outros cientistas, e não em arenas que imitam os debates eleitorais, em que a liberdade para mentir sem apresentar provas é enorme e a performance se sobrepõe em geral à honestidade intelectual.

O debate científico é feito por meio da revisão por pares, ou seja, via literatura científica. É assim mesmo: chato, tedioso – e em geral não dá ingrediente para meme. Mas só assim se pode ter algo realmente construtivo: corrigindo erros, checando evidências, melhorando interpretações etc. Está longe de ser perfeito, mas é muito mais efetivo do que o “telecatch de oratória” que alguns tanto apreciam.

Aliás, uma tática dos negacionistas é justamente conduzir a todos nós para esse ambiente tóxico e contraproducente. Evitar esse tipo de armadilha é basilar. O tipo de “debate” no qual os negacionistas insistem não apenas favorece a forma em detrimento do conteúdo. Ele abre espaço para a “assimetria de Brandolini”, que afirma que “a quantidade de energia necessária para refutar besteiras é de uma ordem de magnitude maior do que a quantidade de energia necessária para produzi-las”.

É preciso também que os ambientes de ciência e nos quais a ciência é utilizada para orientar políticas públicas se valham desses princípios. Da mesma maneira como não se pode enviar satélites de comunicação para o espaço e perder tempo com “debates” com terraplanistas, é inadmissível pensar que a política para o clima possa ser baseada em “opinião” ou em “ouvir os dois lados”, quando o peso das evidências está todo junto a um deles. Assim como não se pode absolutizar a “liberdade de expressão” quando neonazistas apelam a ela para proferirem discursos de ódio, genocídio e extermínio, não podemos ceder à chantagem e à manipulação, fragilizando a tomada democrática de decisão por parte do poder público, dando pesos iguais a orientações fundadas na ciência e a discursos que a negam.

Como uma anticiência tão flagrantemente falsa e ao mesmo tempo tão perniciosa consegue ter êxito e encontrar eco junto à opinião pública? Para além da estratégia forjada desde os anos 1980 e implementada nas décadas seguintes, o que explica a continuidade dos mitos negacionistas? Por que mesmo pessoas de espectros políticos diferentes e até opostos à extrema direita compram – em todo ou em parte – o pacote da propaganda negacionista, às vezes disfarçado de pensamento crítico (como no caso dos que acreditam que se trataria de uma mentira para impedir o progresso nos países em desenvolvimento ou dos que imaginam conspirações capitalistas por trás de Greta Thunberg)?

O negacionismo atinge as pessoas em um ponto fraco. Ninguém gosta de ouvir más notícias – imagine como é pouco aprazível ser o portador da má notícia, papel que nós, que compomos a comunidade científica de clima, temos que desempenhar. A mentira reconfortante de que “não há com o que se preocupar” e de que “vai ficar tudo ok” soa muito mais agradável, ao dialogar com uma reação absolutamente comum diante de um evento ruim: a denegação. Além disso, os negacionistas também dialogam com uma franja da sociedade (à direita e à esquerda) suscetível a aderir a teorias de conspiração.

Mas, mais do que isso, eles dialogam com certos valores e expectativas. A ideia de que é possível seguir com um estilo de vida de altas emissões de carbono – ou almejá-lo – se encaixa perfeitamente no discurso ideológico segundo o qual a prosperidade seria a recompensa meritocrática ao esforço individual, que se alastra à direita mas também incide, em algum grau, sobre a ideia abstrata de abundância, de inclusão pelo consumo, e de que “se a classe operária tudo produz, tudo a ela pertence”, mesmo se o planeta for detonado nesse processo.

Ao sabotar os verdadeiros debates, o negacionismo talvez seja o movimento anticiência mais nocivo que há. Primeiro, por conta da urgência. Com mais de 410 ppm de CO2 na atmosfera, o único cenário que mantém o sistema climático minimamente sob controle, isto é, abaixo de um aumento médio de 1,5°C, demandaria cortar as emissões pela metade em 2030 e zerá-las em 2050.

Segundo, por conta da injustiça: a mudança climática está intimamente ligada à desigualdade. Os países do centro do capitalismo foram justamente aqueles que desenvolveram suas economias a partir das fontes fósseis de energia. Um habitante de Luxemburgo, por exemplo, emite em média 300 vezes mais CO2 – equivalente do que um habitante da Etiópia. Alguém entre os 10% mais ricos dos EUA emite 500 vezes mais do que um habitante de Malawi.

Ao mesmo tempo, os países mais ricos têm melhores condições de enfrentamento dos impactos. Eventos extremos afetam países pobres de maneira mais grave e com perdas de vidas humanas geralmente maiores, como se viu com os deslizamentos em Serra Leoa em 2017 (mais de mil mortes), com a passagem do tufão Haiyan nas Filipinas em 2013 (mais de 6 mil mortes), com a passagem do furacão Matthew no Haiti em 2016 (mais de mil mortes) ou, ainda, com a onda de calor no subcontinente indiano em 2015 (quase 4 mil mortes).

Portanto, também do ponto de vista de justiça social, é preciso que os mais ricos assumam o ônus da conta. E já, para que a conta não seja cobrada das gerações futuras, das crianças e jovens de hoje – de Greta Thunberg, de meu filho Artur e de minhas filhas Bárbara e Ana Greta (sim, minha pequena homônima à ativista sueca).

Greta Thunberg faz uma analogia entre a emergência climática e um incêndio. “É preciso agir como se nossa casa estivesse em chamas. Porque está.” Numa casa em chamas, nenhuma pessoa em sã consciência permaneceria estática por conta de um suposto ceticismo. (“Este incêndio é real?”, “Há realmente um risco para mim por conta deste incêndio?”).

É evidente que a crise climática ocorre em outra escala de tempo, com um grau de complexidade alto, mas a informação necessária para tirar conclusões sobre a sua gravidade e urgência está disponível. Além disso, ela é compreensível especialmente quando nos atentamos aos riscos sobre os sistemas de suporte à vida no planeta e a condições básicas para a nossa sobrevivência, como o acesso a alimento e água potável.

Se há dúvidas sobre para onde ir para escapar da casa em chamas, essa dúvida precisa dar lugar à ação. Como na casa em chamas, a dúvida é um direito apenas temporário. Enquanto cientista e, portanto, enquanto cético, o que posso sugerir é: seja um cético ativo. Se você tem dúvidas, tire-as. E tire-as a tempo. Se tiver dúvidas quanto a esse tempo, sugiro informar-se logo, por precaução.

Alexandre Araújo Costa é físico e doutor em Ciências Atmosféricas pela Universidade do Colorado, integra o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas e leciona na Universidade Estadual do Ceará.

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