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Depois de Trump, a tecnologia da trumpização sobrevive

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Como mestre na bufonaria, Trump procura sempre ocupar obsessivamente o espaço público, multiplicando provocações e insultos que o tornem o centro das atenções.

Francisco Louçã, Esquerda.net, 14 de novembro de 2020

Quando escrevo este artigo ainda não estão contados todos os votos decisivos nos Estados Unidos, embora seja provável a vitória de Biden, a manutenção da maioria republicana no Senado e algum desgaste dos democratas na Câmara dos Representantes. Não foi uma onda azul, as sondagens cruciais enganaram-se outra vez e os resultados confirmam um país irremediavelmente polarizado. Mas mesmo depois da possível derrota de Trump estes fantasmas não voltarão a entrar na lâmpada.

A derrota de Trump na eleição popular era esperada. Afinal, várias das anteriores eleições deram o poder a candidatos vencidos nas urnas (Bush e Trump), que beneficiaram de um sistema de eleição indireta que é uma reminiscência dos compromissos entre Estados na fundação da federação. Nisso, nada de novo. É uma democracia que distorce a representação popular, mas sempre foi assim.

Duas derrotas

Em contrapartida, o que surpreendeu na noite eleitoral e nos dias seguintes foi a paralisação de Trump perante a eminência da derrota. Como mestre na bufonaria, Trump procura sempre ocupar obsessivamente o espaço público, multiplicando provocações e insultos que o tornem o centro das atenções. Mas não o conseguiu e até pareceu não o tentar com convicção. A principal razão para ter ficado congelado foi que as empresas das redes sociais e mesmo a sua televisão favorita, a Fox News, lhe tiraram o tapete para a sua fanfarra. E isso é uma novidade com significado, a sua segunda derrota.

 

A estratégia de Trump no caso de perder era proclamar-se vencedor nas primeiras contagens, forçar judicialmente a anulação da contagem dos votos por correio, precipitar uma crise com manifestações de rua, e para isso precisava de amplificar a convocatória desta espécie de golpe político-judiciário. Precisava de emoção ao rubro, e não de espera paciente. Por cada hora em que os votos iam sendo contados perdia a sua oportunidade. Nisso, o erro que cometeu foi acreditar que quem o colocou no pedestal o ia apoiar sempre. O facto é que as redes sociais lhe faltaram (os seus tuítes a anunciar a vitória na Pensilvânia, Carolina do Norte e Geórgia, e depois no Michigan, foram marcados como informação não confirmada) e, pior, a sua televisão, a Fox News, tomou a decisão espantosa de não apoiar a sua reivindicação de vitória e mesmo de informar sobre o avanço de Biden, o que facilitou a continuação da contagem dos votos.

Entretanto, a multiplicação de respostas desesperadas exibiu a fragilidade de Trump: no mesmo discurso, proclamou-se vencedor e anunciou que iria disputar os resultados no Supremo Tribunal; umas horas depois, exigia a continuação da contagem no Arizona e a sua suspensão no Michigan; contesta em tribunal todos os resultados desfavoráveis. Com este tiroteio, deixa os seus juízes no Supremo numa posição muito difícil, pois teriam que o apoiar baseados unicamente na fidelidade partidária, e não em argumentos jurídicos que finjam consistência.

O sinal das redes sociais

O que é revelado por esta cautela da Fox, que antevê um novo Presidente e o afastamento do seu escolhido, como do Facebook e do Twitter, é que temem o efeito boomerang da sua instrumentalização política, mesmo que sempre a tenham permitido.

O Facebook reconhece que anula agora 17 milhões de contas falsas por dia, o dobro do que ocorria há três anos. Um dos seus fundadores escrevia, em 2019, que metade das contas é falsa e a empresa desmentiu-o ,mas manteve os números em segredo. Está mesmo a intervir na circulação de informação e na seleção dos anúncios para se proteger: em 2020 já terão sido retirados 22 milhões de posts por discurso de ódio, dez vezes mais do que em 2017. Algumas das páginas do QAnon foram abolidas, bem como anúncios de movimentos antivacinas ou de negacionistas do Holocausto. O YouTube, com dois mil milhões de utilizadores por mês, teria retirado no trimestre passado 11,4 milhões de vídeos por razões idênticas, decuplicando os valores de 2018. O Twitter, com menos utilizadores, 250 milhões, terá removido 2,9 milhões de tuítes na segunda metade de 2019. Desde a noite eleitoral, bloquearam a fúria de Trump.

Zuckerberg e a oligarquia das redes estão com medo, e Trump passou a ser um fardo excessivo. É o pior cartão de visita que podem mostrar. Mas não se engane: a tecnologia da trumpização sobrevive e os aprendizes sabem que os robôs que bombardeiam com a mentira valem votos. A tribalização irreparável dos EUA é a prova do seu sucesso.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 7 de novembro de 2020.

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