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"Não sou primeira nem última a virar alvo de um supremacista branco"

Amy Goodman entrevista a ativista Alicia Garza, co-fundadora do Black Lives Matter

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Nesta época eleitoral, a co-fundadora da Black Lives Matter, Alicia Garza, diz que Trump está "atenado fogos que não tem intenção de controlar" e incitando extremistas de extrema-direita. Foi recentemente abordada pelo FBI depois de agentes terem encontrado o seu nome numa lista na casa de um supremacista branco em Idaho, que foi preso sob a acusação de posse de armas. "O terror racial tem sido sempre usado como forma de controle, particularmente durante períodos de luta por mudanças sociais", diz ela. Esta entrevista foi publicada por Democracy Now. A tradução é de Luís Branco para o esquerda.net.

AMY GOODMAN: Queria perguntar-lhe, Alicia Garza, sobre esta última notícia. Os procuradores

federais prenderam um líder autodescrito do movimento "boogaloo" da extrema-direita em ligação com o incêndio de uma esquadra da polícia de Minneapolis em Maio. A Procuradoria dos EUA no Minnesota diz que Ivan Harrison Hunter, de 26 anos, disparou 13 balas de uma espingarda semiautomática para a 3ª Esquadra durante os protestos contra o assassinato policial de George Floyd. Os "boogaloo boys" promovem atos violentos destinados a desencadear a guerra civil nos Estados Unidos, e estiveram ligados a mais de duas dúzias de detenções e cinco mortes este ano.

Entretanto, o seu nome surgiu relacionado com o facto de ser um alvo. Recentemente tweetou: "É por isso que este Presidente é tão perigoso". Ele está a atear fogos que não tem qualquer intenção de controlar". Pode dizer-nos o que aconteceu?

ALICIA GARZA: Quero começar por dizer que isto não é atípico para este presidente. E, de facto, é apenas o resultado provável e inevitável das chamas racistas que este presidente está e tem estado a atear, não apenas nos últimos quatro anos, mas há muito tempo. Todos nos lembramos do que aconteceu com os "5 Absolvidos" [o caso de cinco jovens condenados erradamente pela morte de outra jovem no Central Park de Nova Iorque], em que este presidente utilizou efetivamente os seus recursos para promover a pena de morte de cinco pessoas inocentes.

Uma das coisas que me parece importante continuar a levantar aqui é que esta conversa sobre terror racial não vai suficientemente longe. E assistimos a incidentes semelhantes em Oakland durante os protestos de George Floyd. Há tanta retórica que este presidente usa sobre o Black Lives Matter e motins e violência, mas em cada caso o que estamos a descobrir é que isto está ligado a milícias brancas, grupos nacionalistas brancos, grupos supremacistas brancos, que vão aos protestos para provocar o caos, para iniciar a violência e para criar distúrbios. E quem fica com as culpas são pessoas que protestam para colocar as questões da justiça, para colocar as questões da dignidade e para lutar contra a violência policial nas nossas comunidades. E isto não é suficientemente debatido.

O FBI disse, inequivocamente, que o nacionalismo branco é a maior ameaça à democracia americana. E isso foi há pouco tempo. E no entanto, uma e outra vez, demasiadas pessoas continuam a fazer avançar estas narrativas que simplesmente não são verdadeiras. Até a Vice News fez recentemente uma reportagem que dizia que 97% dos protestos pela Black Lives Matter foram pacíficos, mas que nos 3% em que não o foram, não se tratava de uma questão de manifestantes se tornarem violentos, tratava-se de uma questão de pessoas com armas a aparecerem em protestos e a criarem caos e a iniciarem a violência. E por isso quero que todos compreendam bem as consequências e implicações disto.

Não sou a primeira pessoa, e não serei a última, a aparecer numa lista em casa de um supremacista branco. Vimos isto, claro, há apenas um ou dois anos, quando havia um tipo, acho que na Florida, que tinha planeado enviar bombas de correio para vários ativistas e vários repórteres na CNN. E no entanto esta administração continua a ignorar e também, francamente, a dar palco a estes grupos muito perigosos.

Para as pessoas que andam desatentas, o terror racial tem sido sempre utilizado como forma de controlo, particularmente durante os períodos de luta pelas mudanças sociais, desde a luta pelos direitos de voto dos anos 1950, quando o Ku Klux Klan foi armado para aterrorizar os ativistas, aparecer nas casas das pessoas e queimar cruzes e disparar armas através das suas janelas, até aos dias de hoje. Esses flagelos no nosso país não desapareceram.

E agora temos um presidente que lhes está a dar uma plataforma e essencialmente a dizer: "Façam o que precisam de fazer". Isso é perigoso não só para pessoas como eu, mas para todos os que nos veem e ouvem neste programa.

AMY GOODMAN: E não só este tipo que foi preso, acusado de atear fogos, aproveitando-se dos protestos pacíficos de George Floyd depois de ter sido morto por polícias. Em julho, a polícia de Minneapolis prendeu um homem conhecido como o "Umbrella Man", que foi filmado a partir as janelas de uma loja de peças automóveis a 27 de Maio, dois dias após o assassinato de Floyd pela polícia. Os investigadores dizem que o homem é um supremacista branco que tentou provocar violência contra os manifestantes. Um investigador de fogo posto de Minneapolis escreveu numa declaração juramentada: "Este foi o primeiro incêndio que provocou uma série de incêndios e saques em todo o bairro e no resto da cidade".

Agora vamos a ouvir o Vice Presidente Mike Pence na convenção republicana, fazendo eco da promessa de Trump de impor a lei e a ordem, e mencionando o assassinato de um agente policial durante um protesto do Black Lives Matter em Oakland. Isto foi o que ele disse:

VOZ DO VICE-PRESIDENTE MIKE PENCE: Pessoas como Dave Patrick Underwood, um oficial do Serviço Federal de Proteção do Departamento de Segurança Interna, que foi baleado e morto durante os tumultos em Oakland, Califórnia. O heroísmo de Dave é emblemático dos heróis que servem vestidos de azul todos os dias. E temos o privilégio, esta noite, de ter a companhia da sua irmã Angela.

AMY GOODMAN: O que o vice presidente deixou de fora foi uma parte chave da história: O homem acusado da morte de Underwood não era um manifestante da Black Lives Matter, mas um homem com ligações ao movimento "boogaloo" da extrema-direita, que utilizou estes protestos contra a brutalidade policial como cobertura para levar a cabo a violência. E isto teve lugar em Oakland.

ALICIA GARZA: É isso mesmo.

"Este Presidente e este Vice-Presidente traficam mentiras como forma de distração do facto de não estarem a liderar este país"

GOODMAN: Então, se pudesse falar mais sobre isto e as suas preocupações sobre o que poderia acontecer no período pós-eleitoral - quero dizer, é muito claro que o dia 3 de Novembro pode não ser o fim da contagem, que há milhões de pessoas cujos votos podem ser contados nos dias vindouros, que podem ser recebidos até ao dia das eleições - e o que isto pode significar nas ruas, pois o Presidente Trump alimenta a preocupação de que se a votação não for nessa noite, esta seria uma eleição fraudulenta?

ALICIA GARZA: Bem, este Presidente tem andado a traficar mentiras, desinformação e desinformação mesmo antes de tomar posse, e por isso não é surpresa que seja essa a sua posição neste momento. Na verdade, é flagrante que o Vice-Presidente e o Presidente não dizem a verdade ao povo americano, e, de facto, em vez de dizerem a verdade ao povo americano estão a usar o Black Lives Matter como bode expiatório pela sua própria falta de vontade de proteger cada cidadão americano nesta nação, a sua própria falta de vontade e de propósito em termos de enfrentar os desafios que este país enfrenta neste momento, desde a pandemia e a recessão económica até à crise climática. Mais uma vez, este Presidente e este Vice-Presidente traficam mentiras como forma de distração do facto de não estarem a liderar este país. É importante poder confiar na informação que vem do líder do seu país. E descobrimos, uma e outra vez, que não se pode fazer isso. Descobrimos também que a ambos os líderes falta um nível de integridade. Houve muito tempo para corrigir estas histórias e estas mentiras que eles contaram, e mesmo assim continuaram em escalada. É uma sensação estranha alguém ligar a televisão e ver o Presidente a contar mentiras sobre si e as coisas que fez neste movimento.

Quero que as pessoas compreendam realmente as implicações disto. Há meses que este Presidente tem vindo a alimentar receios sobre a ilegitimidade de uma eleição. E isso tem sido, naturalmente, com o propósito de tentar consolidar o seu poder. Se o Presidente Trump não reconhecer a legitimidade da eleição, penso que as implicações aqui são que pode não haver eleições completas e justas e livres. Deveríamos estar muito preocupados ao ver que este Presidente e a sua administração parecem inclinados a mudar a estrutura do governo. Isso tem sido um ponto da agenda do movimento conservador durante os últimos 30 anos e só agora é que eles são realmente capazes de tentar cumprir essas promessas. Portanto, há muita coisa em jogo desta vez, e não é apenas qual o partido que toma o poder. É também muito sobre a estrutura e o processo do governo.

Por último, penso que devemos preocupar-nos com o facto de este presidente não ter mostrado liderança moral para tentar reunir as pessoas durante tempos muito turbulentos. E, de facto, mais uma vez, ele está a fomentar a violência. E está a fazê-lo de uma forma que é algo petulante, mas penso que ele também compreende que há um pequeno grupo de pessoas que levará a violência ao extremo. E quem sofre com isso é o povo americano. Quem sofre com isso são as pessoas que lutam pela justiça e lutam para tornar realmente grande este país. E isso deve preocupar-nos a todos. Estamos no ano 2020, não no ano 1956, não no ano 1965, nem mesmo no ano 1972. O que já deveríamos ter aprendido até agora - certo? - é que o terror racial e a violência racial não têm lugar neste país. E no entanto agora temos um líder na Casa Branca que o está a acirrar e a ressuscitar, quando, francamente, ele pertence aos livros de história e não ao nosso presente, e certamente não ao nosso futuro.

Alicia Garza é a diretora do Black Futures Lab, co-fundadora da Supermajority, co-fundadora da Black Lives Matter Global Network.

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