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Transição cultural de carne às dietas baseadas em plantas

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Precisamos reformar a forma como produzimos e consumimos alimentos como uma prioridade urgente, longe dos interesses destas megacorporações

José Rodrigues Filho, EcoDebate, 2 de junho de 2021

Ao país que deu ao mundo o patê de foie gras, coq au vin (frango ao vinho) e carnes fritas está sendo pedido para abandonar a sua dieta pesada de carne em favor de opções vegetarianas, à medida que a França embarca numa histórica “transição cultural”, que trará mudanças varrendo todos os aspectos da sociedade.

Estas propostas estão se dando em meio ao barulho e gritos de repúdio dos tradicionalistas da cozinha francesa, mas sendo bem-vindas pelos mais jovens. Há poucos meses a decisão do prefeito da cidade de Lyon, vista como a capital culinária do país, de tirar temporariamente a carne do menu das cantinas das escolas durante a pandemia levou a uma briga política na França. O prefeito de Lyon, Grégory Doucet, foi acusado de comportamento ideológico e elitista depois de medidas que foram estudadas por outras cidades, incluindo Paris.

Resistência a qualquer proposta de reduzir o consumo de carne será forte por parte dos poderosos lobbies da agropecuária. A decisão de Lyon foi enfrentada com protestos de tratores e uma parada de vacas e ovelhas no centro da cidade, embora o prefeito nunca tentou uma dieta vegetariana para as crianças da cidade, mas apenas uma mudança temporária de cardápio na capital da gastronomia. A ministra do meio ambiente e transição ecológica da França, Barbara Pompili, não demonstrou preocupação com o repúdio e barulho destes poderosos lobbies, mas a intenção de reformar o sistema alimentar do país e seguir a orientação de recente relatório apoiado pelas Nações Unidas, que enfatiza uma convergência do consumo global de alimentos em torno de dietas predominantemente baseadas em plantas.

Reconhecendo erros do passado, a ministra não pretende privilegiar determinados grupos, mas envolver todos, de modo que o meio ambiente seja um reflexo das pessoas e cada um dos franceses desempenhe o seu papel na proteção ambiental, na tentativa de uma transição cultural de seu povo. O propósito é trazer mudanças sustentáveis nas atividades agrícolas, enfatizando a produção local de alimentos, reduzindo carbonos, garantindo menus de alta qualidade vegetariana e favorecendo a produção de carne no país a ser maior do que as importações. Por fim, para ela, a política ambiental sustentável deve ser sobre a vida das pessoas.

Ao encaminhar propostas de lei para o Parlamento, que inclui um menu compulsório de alimento vegetariano uma vez por semana em todas as escolas, uma escolha de alimentos vegetarianos em todas as cantinas do país, gerenciadas pelo governo, incluindo órgãos públicos e universidades e treinamento para se garantir um menu de alta qualidade, a França propõe um estímulo econômico de quase 200 bilhões de dólares para renovar sua economia, que poderá se tornar a mais verde do mundo, além de enfatizar sua responsabilidade especial de implementação do Acordo de Paris.

Está sendo dito que uma mudança de bife para vegetais pela população dos Estados Unidos reduzirá o uso de terras equivalente a 42%, de modo que elas possam ser usadas para outras atividades agrícolas, renaturalizando e protegendo a natureza. Similarmente, como disse a ministra Barbara Pompili, cerca de 15% das emissões de gases e 91% do desmatamento da Amazônia estão ligados às atividades da agropecuária. Assim sendo, desenvolver uma oferta vegetariana significa agir em favor do clima, contra o desmatamento.

O relatório acima citado propõe uma transição para dietas baseadas em plantas, uma vez que a pecuária tem o maior impacto ambiental, sendo a reversão da tendência crescente do consumo de carne a solução para restaurar os ecossistemas nativos, aumentando a biodiversidade. Observa-se, portanto, que mudanças do sistema global de alimentos atacará a crise climática e de saúde da população. Infelizmente, muitos políticos se preocupam em tornar os alimentos mais barato, porém não se preocupam com suas toxidades do ponto de vista do planeta ou perspectiva de saúde.

Se o mundo não enfatizar uma política ambiental sustentável valorizando a vida das pessoas, a produção de alimentos à base de plantas tornar-se-á insustentável, servindo apenas aos interesses do capital. A partir do momento em que o grande dinheiro começa se tornando vegano, investindo na indústria de alimentos à base de plantas como uma grande oportunidade de crescimento, já se percebe a raposa cuidando do galinheiro.

Corporações como JBS e Blackstone, acusadas de desmatamento na Amazônia, estão fazendo grandes investimentos, incluindo a compra de empresas produtoras destes alimentos. A JBS está sendo muito criticada na Europa, principalmente por suas práticas de desmatamento e de financiar ilicitamente políticos brasileiros, enquanto a Blackstone não parece ser diferente por financiar as campanhas de Trump e, segundo os comentários, também desmatou a Amazônia.

Enquanto alguns países estão embarcando numa transição para dietas baseadas em plantas, o governo brasileiro não parece se preocupar com os incêndios da Amazônia e o nosso Congresso engajado na aprovação de legislações nocivas e favoráveis à aquisição de terras por estrangeiros, além das que facilitam práticas de destruição do meio ambiente. Resta saber se o financiamento ilícito de políticos está por trás destes absurdos.

Precisamos reformar a forma como produzimos e consumimos alimentos como uma prioridade urgente, longe dos interesses destas megacorporações. Como reduzir o consumo de carne, pensando em salvar o planeta, apoiando os maiores produtores de carne do mundo?

José Rodrigues Filho é professor da Universidade Federal da Paraíba, Foi pesquisador nas Universidades de Johns Hopkins e Harvard e que recentemente foi professor visitante na McMaster University, Canadá. 

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