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Uma economia planificada para uma mudança radical

Os termômetros marcaram 25ºC na Sibéria, em 22 de maio. O recorde anterior era de 12ºC. No dia 9/6, no Círculo Polar Ártico, registraram-se 30ºC em Nizhnyaya Pesha. É uma mudança radical daquele território.

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João Camargo, Público, 22 de junho de 2020

Na Sibéria, a 22 de Maio, estiveram 25ºC. O recorde anterior era de 12ºC. No dia 9 de Junho, também no Círculo Polar Ártico, a temperatura atingiu os 30ºC na cidade de Nizhnyaya Pesha. Esta temperatura está entre 6ºC e 10ºC acima da média entre 1951 e 1980 na Sibéria. É uma mudança radical daquele território.

O derretimento do gelo permanente, o permafrost, faz com que naturalmente quaisquer estruturas sobre o mesmo colapsem. Foi o que aconteceu com um tanque de diesel na cidade de Norilsk, que levou a uma fuga de diesel para um rio, que durou vários dias. Vladimir Putin declarou o Estado de Emergência mas o estrago produzido é irrecuperável (dizem que vai demorar décadas, mas é apenas malabarismo comunicativo). As cidades que foram construídas nestes lugares nunca lá deveriam ter sido postas, e menos ainda estruturas industriais. Como associado a este aumento de temperatura também ocorreu um aumento de quase 30% da precipitação, cheias devastaram vários meios urbanos, com milhares de pessoas a terem de ser evacuadas na zona de Irkutsk.

"Estas temperaturas extremas (que não ocorreram só em 2020) estão a

mudar radicalmente as paisagens e ecossistemas da Sibéria"

No entanto, se o panorama do meio urbano é preocupante, estas temperaturas extremas (que não ocorreram só em 2020) estão a mudar radicalmente as paisagens e ecossistemas da Sibéria. Os incêndios florestais que no ano passado consumiram 15 milhões de hectares (uma área superior ao tamanho da África do Sul) estão de volta, e começaram ainda mais cedo. As temperaturas mais altas e a água disponível do degelo provocaram um crescimento mais rápido da vegetação. Nas últimas décadas a biodiversidade mudou rapidamente, com ervas e insectos que não estavam antes presentes a crescer em volume. As traças da seda, que viviam em latitudes mais a Sul e estavam limitadas na sua actividade pela temperatura, subiram mais de 150km para se aproximarem do Círculo Polar Ártico, invadindo a floresta boreal e comendo as agulhas dos pinheiros, tornando as árvores mais ainda mais vulneráveis a doenças e incêndios.

As estepes estão a ficar mais quentes e mais verdes, reduzindo a reflexão de radiação solar de volta para o espaço. Isso agrava ainda mais o aquecimento global. Debaixo do gelo milenar que derrete estão hidrocarbonetos que se libertam directamente para a atmosfera (além de outras coisas, como doenças há muito desaparecidas).

A média dos doze meses anteriores a Maio de 2020 a nível global está 1,3ºC acima da temperatura pré-industrial, sendo que o Acordo de Paris prevê manter o aumento de temperatura abaixo de 2ºC, preferencialmente 1,5ºC até 2100.

O que terá tudo isto a ver com uma economia planificada? Muito, e em vários aspectos.

Estamos hoje no meio de uma recessão global em que a actividade comercial reduziu-se espectacularmente, os transportes também, a produção industrial idem. Estamos também por isso às portas de uma crise social e de emprego sem precedentes. No entanto, essa crise ocorrerá dentro da crise climática, que tem efeitos globais no planeta e específicos em cada região. A região da Sibéria é considerada como uma das que poderá (muito abstractamente) “beneficiar” do aumento da temperatura. Na maioria das regiões, os efeitos serão muito mais inequivocamente negativos, no sentido da simplificação de ecossistemas, devastação de sistemas económicos e sociais.

"Para evitar os piores efeitos das alterações climáticas, é necessário um corte

radical de emissões de gases com efeito de estufa à escala global"

Para evitar os piores efeitos das alterações climáticas, é necessário um corte radical de emissões de gases com efeito de estufa à escala global (estimado num corte de 7,6% de emissões ao ano até 2030). Durante o mês de Abril, devido ao Covid19, as emissões tinham caído 17% comparando com 2019, o que colocava as emissões ao nível de 2006. No entanto, as emissões estão a voltar a grande velocidade. Entre 1 de Janeiro e 11 de Junho as emissões estão 8,6% abaixo de 2019, mas já se prevê que a redução anual fique entre 4 e 7% em relação a 2019, isto é, abaixo do que é necessário num só ano para manter o aumento de temperatura abaixo dos 1,5ºC.

Neste sentido, torna-se totalmente claro que não há acidentes para resolver a crise climática. O Covid19 não faz desaparecer a crise climática. Não há uma economia de mercado em que os agentes económicos agem de forma livre, com intervenção mínima do Estado e com informação perfeita que faça desaparecer a crise climática. Na verdade nunca houve sequer essa economia de mercado com intervenção mínima do Estado, o que houve foram economias planificadas pelos Estados para a acumulação de capital por alguns grupos privados. É a chamada liberdade capitalista, em que a legislação, a regulamentação e a supervisão invocam imparcialidade para montar as regras do jogo, planeando a economia para que os donos disto tudo sejam sempre os donos disto tudo. É também por causa dessa planificação económica que a crise climática não é resolvida - porque a sua resolução implica arrancar pela raiz os privilégios da economia fóssil e dos seus vários cartéis afins, seja na indústria, seja nos transportes, seja na agricultura ou no comércio.

As sabotagens permanentes à planificação social e democrática são a marca do poder capitalista e um importante desafio para resolver a crise climática

A planificação económica demonizada foi sempre sempre aquela que não correspondia aos estritos interesses das classes que dominavam o capitalismo, embora em alguns momentos históricos tenham percebido que tinham mesmo de ceder, como ocorreu no pós-2ª Guerra Mundial.

As sabotagens permanentes à planificação social e democrática são a marca do poder capitalista e um dos mais importantes desafios que encontramos hoje para resolver a crise climática. Uma parte inultrapassável de qualquer plano com a mínima possibilidade de sucesso de resolver a crise climática é desmantelar o plano capitalista. Na Europa significa abandonar biliões de euros de investimento (pelo menos 10 biliões, segundo o jornal Politico) em activos energéticos encalhados - toda a infraestrutura para extrair, processar, transformar, exportar e distribuir as reservas de petróleo, gás e carvão, além de muitas das máquinas e infraestruturas que funcionam à base destas.

Os regressos à “normalidade”, sejam anunciado com um corte de uma faixa cor-de-rosa ou com o anúncio de um torneio da Liga dos Campeões e um relatório de um salvador da pátria são planos suicidas e têm de ser desmantelados.

 

Artigo publicado em expresso.pt a 22 de junho de 2020

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