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Vamos conversar sobre masculinidade tóxica?

“Masculinidades” são performances do masculino. Cada homem pode ter sua própria masculinidade, inclusive longe do padrão tóxico que vamos debater por aqui.

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Leandro Martins*

Já parou para pensar na força da expressão: “homem que é homem não chora”? Quem nunca a ouviu, não é mesmo? E você já pensou na série de comportamentos que definem quem é “mais homem” ou “menos homem”? Para celebrar o Dia do Homem, a gente resolveu refletir sobre o papel de gênero esperado por parte deles, como isso acaba gerando o que chamamos de masculinidade tóxica e alguns de seus impactos na sociedade.

Masculinidades no plural

“Masculinidades” são performances do masculino que dizem respeito ao papel de gênero atribuído aos homens. Papel de gênero pode ser entendido como um conjunto de comportamentos associados ao gênero dentro de um grupo social. As masculinidades são então ensinadas e transmitidas através de comportamentos, funções e percepções.

Prefiro tratar o termo “masculinidades” no plural. Afinal, entendo que mesmo havendo um padrão imposto socialmente, hegemônico, ele não é o único que existe. Cada homem pode ter sua própria masculinidade, inclusive longe do padrão tóxico que vamos debater por aqui.

Masculinidade tóxica e seus impactos

A masculinidade tóxica é uma performance de gênero que reitera a relação de poder estabelecida entre gêneros dentro da sociedade. Ela não permite ao homem ser da maneira que deseja, mas sim apenas o que se espera dele. 

A partir dela, homens são levados à valorizarem e realizarem performances exageradas do masculino. Passam a ser pressionados a esconder seus sentimentos, não demonstrar “fraqueza”, não chorar ou se cuidar.

Sendo um dos poucos sentimentos com o qual são ensinados que podem se identificar, o ódio e a violência dos homens são socialmente aceitos pela sociedade. Vemos isso em ações cotidianas, como no trânsito, no futebol e até mesmo em crimes. Esse quadro leva a consequências graves.

Toxicidade em números

Uma pesquisa com 40 mil brasileiros foi feita pelo Instituto Papo de Homem em parceria com a ONU Mulheres em 2019. Os dados coletados apontam que:

  • 6 em cada 10 homens afirmam que não foram ensinados a expressar emoções;
  • 7 (sete) em cada 10 (dez) dizem que foram ensinados a não demonstrar fragilidade;
  • homens se suicidam quase 4 (quatro) vezes mais que mulheres;
  • 83% (oitenta e três por cento) das mortes por homicídio e acidentes no Brasil têm homens como vítimas;
  • 1 (um) em cada 4 (quatro) homens de até 24 anos afirma se sentir solitário sempre;
  • 17% dos homens lidam com dependência alcoólica;
  • 1 em cada 4 homens é viciado em pornografia.

Os resultados da pesquisa foram usados para embasar o documentário “O silêncio dos homens“, que você pode ver aqui.

Segundo a OMS, nosso país tem a taxa de suicídio de homens em 76%. Além disso, somos o país que mais mata pessoas trans do mundo e também o que mais consume de pornografia trans e travesti.

Os dados completos sobre o panorama da lgbtfobia no Brasil você pode encontrar aqui.

A masculinidade tóxica também machuca homens

Num primeiro momento, há a negligência com a própria saúde, seja ela física ou mental. Não à toa, é na população masculina que encontramos os altos índices de violências, suicídios, uso abusivo de álcool e outras drogas.

Num segundo momento, essa violência extrapola o indivíduo. Numa tentativa de assegurar que essa masculinidade seja mantida e reiterada, homens retaliam outros homens, também através de violências, para que se enquadrem no padrão.

Apesar dos diversos mecanismos sociais para manutenção desse padrão, ele se mostra complexo de se sustentar. Ao refutar seus sentimentos para sustentar essa narrativa da identidade masculina padrão, nasce a masculinidade frágil. Afinal, ao menor sinal de contato com sentimentos, toda a estrutura que sustenta aquela identidade cai. Poucos são aqueles que conseguem viver por tanto tempo dentro do papel ou personagem esperado, negando seus sentimentos e afetos.

Todos estes aspectos são bastante atuais e têm impacto em toda a sociedade, não apenas nos homens. Por isso e por ser identificado como uma consequência direta do machismo, esse tema vem ganhando força nos últimos anos. Se queremos uma sociedade mais justa e menos violenta, é muito necessário que conversemos sobre ele.

Ao longo da história

O padrão de masculinidade foi – e é – bastante reforçado através das instituições, sejam elas estatais ou religiosas, e também por parte da cultura da sociedade como um todo.

Podemos encontrar essas representações de masculinidade inclusive na Bíblia. Na história do livro sagrado, as mulheres são criadas a partir da costela de Adão. Ao longo do tempo, essa narrativa foi usada como uma justificativa às ideias de submissão e controle das mulheres.

No século XIX, as performances de gênero se intensificam com as definições dos papéis de gênero de homens e mulheres. Essa construção social fez que os homens fossem vistos (e exigidos) como machos, varões, valentes, viris, inteligentes, provedores e fortes. Já a mulher, no imaginário popular, representava o oposto.

Impactos em mulheres

Com as divisões de gênero, à mulher fica delegada a função de servir, procriar e cuidar do lar – os trabalhos reprodutivos – além de ser considerada posse de homens.

O lar, local designado às mulheres, passou a ser espaço de inúmeras violências. De violência psicológica, através de agressões verbais, a até mesmo física, culminando em estupros. Todas essas formas de agressões foram naturalizadas pela mesma ideia de posse e dominação masculina.

No Brasil, até os anos 80, a mulher era desprovida de uma série de direitos. As leis brasileiras entendiam que a violência contra a esposa era aceitável – ou até mesmo o sexo sem seu consentimento. Isso tudo em nome da “honra” do homem, fruto de uma visão patriarcal. Quando se separavam, sua situação se agravava mais ainda, já que para exercer seus direitos civis básicos, como trabalhar, necessitava da permissão de um marido.

Com o avanço da luta feminista e a busca por equidade de gênero, políticas públicas e mudanças culturais têm combatido esse quadro. Contudo, o número de feminicídios ainda é alarmante em nosso país e há muito para avançar.

Na infância

“Homem que é homem, não chora”, “guarde esse choro”, “e é mulherzinha?”, “isso é coisa de viado”, “ande/fale como homem”, “segure suas cabritas que meu bode tá solto”.

Antes mesmo de nascer, meninos já possuem um universo pensado e estereotipado por expectativas. Como terão de se comportar, quais cores e roupas poderão ser usadas e até ganham “namoradinhas”. Logo ao nascer, o tamanho do seu órgão sexual já é assunto. “Puxou ao pai”, “esse vai ser namorador”, entre outros. O discurso que reitera o padrão patriarcal e hétero-cis-normativo e estimula a masculinidade tóxica não é exclusivo aos homens, podendo ser reforçado inclusive por mulheres.

Assim, esse mecanismo social está presente já na fase de aprendizado e da construção da subjetividade das crianças. São brincadeiras, cores, roupas e comportamentos.

Brincadeiras de meninos estimulam liberdade, movimento, raciocínio lógico e ação. São carros, esportes, armas, guerras, luta, violência e poder- o que só reforça a cultura da violência. Essa violência também está na linguagem. Logo cedo, garotos aprendem xingamentos que reforçam o ódio às mulheres, gays e travestis. Passam a desdenhar o feminino sem nem saber o porquê.

Para além das vivências lúdicas, crianças também são vítimas da masculinidade tóxica por conta de abandonos paternos estruturais. De acordo com o Instituto Brasileiro de Direito de Família – IBDFAM, mais de 5,5 milhões de crianças brasileiras não tem o nome do pai no registro. Isso sem contar o número de crianças que possuem o pai presente apenas no documento.

Intersecções

Não podemos abordar esse tema sem pensar de forma interseccional, seja em termos de raça ou orientação sexual. O gênero “homem” é um grupo plural, formado por homens cis, trans, héteros, lgbtis, pretos, brancos, pardos, índios e outros.

Raça

A construção das masculinidades das raças no Brasil se deu de formas distintas. Diante disso, não podemos encarar o assunto sem considerarmos as especificidades e a os desafios de cada grupo.

A realidade do homem preto abarca mais de 300 anos de escravidão, e isso possui impacto até hoje. O Departamento Penitenciário Nacional (Depen), em 2016, aponta que a população presa é predominantemente composta por pretos e pardos (65%).

Homens pretos enfrentam a realidade perversa do encarceramento em massa, da violência policial e da desigualdade social como um todo. Além disso, possuem uma pressão para corresponder a um ideal masculino ainda mais forte do que os brancos.

Meio lgbti+

A masculinidade tóxica também está presente no meio lgbti+. O homem padrão cis, viril, musculoso e branco é também copiado ao universo lgbti+. São as chamadas “barbies”.

Esse padrão lesa tanto homens héteros quanto lgbtis+ através da pressão para se enquadrar ou se manter nele. É excludente e adoecedor, uma vez que a comunidade lgbti+ é composta por diversidades, seja ela de corpos, cores e orientações afetivas.

Mesmo após anos de luta por direitos e diversos assassinatos de homens lgbtis+ por homens que buscavam reiterar o discurso do homem cis-hétero padrão, esse modelo estético a ser seguido continua em voga no meio lgbti+.

A masculinidade tóxica pode ser observada nas conversas cotidianas entre homens lgbtis+ ou em aplicativos de relacionamento. Descrições como “não sou, nem curto afeminado”, “só curto discreto”, “não precisa dar pinta”, “não curto gordos” são bastante comuns.

Os homens padrões lgbtis+ também precisam se conscientizar acerca de história. Foram afeminadas e travestis, como Marsha P. Jhonson, as responsáveis pelos avanços nos direitos lgbtis+. Elas lutaram para que não fôssemos enquadrades como “pederastas”, doentes ou pessoas criminosas.

Caminhos

A questão da masculinidade tóxica e de toda estrutura machista requer que debatemos caminhos para superá-las. Um deles pode ser a educação.

Precisamos romper o ciclo de perpetuação do ódio e de atitudes lesivas, cotidianamente naturalizado. O debate de gênero precisa ser ampliado em escolas, veículos de comunicação e grupos de debates. Para além das mulheres feministas, os homens também precisam se perceber como peças fundamentais desse processo de transformação.

Essa temática é transversal e estruturante. É a base das relações, não só com os outros, mas também consigo mesmo, com nosso corpo, nossas expressões, jeito de falar, maneira com a qual demonstramos afetos. Está em tudo, ainda que a gente não perceba.

Sob a minha pele

Enquanto sujeito, sou atravessado por inúmeras referências. Por ser filho de mãe solteira, bissexual, nordestino, operador de segurança pública, percebo a masculinidade como uma performance mutável.

Ela advém de inúmeros fatores, sem esquecer que somos sujeitos biopsicossociais, inseridos em um contexto, e este exerce muitas influências em nossos comportamentos.

Para ser homem não tem receita. Cada um pode construir sua própria masculinidade. Pode estar totalmente fora do padrão, rompendo caixas e armários.

Uma forma de se libertar é se permitir demonstrar afeto, chorar, abraçar, falar sobre seus sentimentos com amigues, nutrir relações não sexuais. Saber que fracasso faz parte do processo e que em algum momento ele pode acontecer, sem ser o fim, sem precisar provar nada aos outros.

Precisamos buscar caminhos para superar esse padrão tóxico de ser homem e possibilitar que cada homem viva sua própria masculinidade.

E você, como tem construído sua masculinidade?

Texto: Leandro Martins, guarda municipal em Aracaju, militante da Insurgência em Sergipe,

membro da Rede Nacional de Operadores da Segurança Pública LGBTI+.
Revisão: Marianna Godoy

Foto: John Noonan | Unsplash

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