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Artous: Introdução à política como arte estratégica

Texto originalmente publicado em 2011 como introdução da antologia de textos de Bensaïd de mesmo nome. Tradução de Patricia Anette. Reproduzido de MRI.

· IV Internacional,Formação,Sem Fronteiras,Vale a pena ler

Antoine Artous, Contretemps, 12 de setembro de 2019. 

“Elogio da política profana como arte estratégica” – assim se conclui um dos últimos livros de Daniel Bensaïd [1]. A referência à política como arte estratégica é nele recorrente. Ela está presente nos textos que reuni aqui [2] (em geral inéditos em publicações impressas) e que, no decorrer da década, regressam a alguns debates estratégicos passados, confrontando-os ao mesmo tempo com a realidade presente. Já o acréscimo do adjetivo “profana” tem por vezes surpreendido. Sem dúvida alguma, ele está ligado em parte à conjuntura histórica atual (o retorno do sagrado), mas, mais profundamente, ilustra o lugar ocupado pela categoria de estratégia em seu dispositivo de releitura de Marx, onde a transcendência religiosa não é simplesmente substituída por uma religião da história.

Assim, em Marx, o intempestivo, trata-se de “uma nova escrita da história” que passa “do sagrado ao profano” desconstruindo uma visão fetichista da história universal. A problemática da racionalidade histórica já não remete mais a “uma normalidade transcendental, mas a uma racionalidade imanente” que se expressa no modo da escolha estratégica. Trata-se de tentar pensar uma “causalidade histórica” que não dependa de um determinismo histórico, mas de uma “possibilidade objetiva”. Emerge então uma “outra racionalidade. Na qual a história se amarra ao político. Na qual o conhecimento se torna estratégico” [3].

É por isso que “em Marx, a relação de classe não é um conceito sociológico classificatório, mas um conceito estratégico: as classes se colocam reciprocamente em sua luta”, escreveu Daniel Bensaïd em maio de 2006, em Momento utópico e refundação estratégica [4]. As classes sociais não existem por si mesmas, como dados sociológicos já construídos (ou já constituídos, como sujeitos da história). Existe uma relação de exploração, que gera certas contradições e conflitos através dos quais os grupos sociais se constituem em classes. Assim, ele escreve em 2003, em Um mundo a transformar:

“O papel central atribuído por Marx à classe trabalhadora não depende de um determinismo sociológico que conduziria mecanicamente o proletariado a agir conforme à sua essência. Ele é de ordem estratégica: reunir os protestos particulares e superar as diferenças em um combate comum, em um processo de universalização.” [5]

“Derrubada do poder político burguês”

Se desenrolarmos os fios, vemos que a categoria de estratégia se articula a um marxismo que rompe com toda transcendência, em prol de uma racionalidade histórica que se constrói através do conflito e sob a forma do possível estratégico. Ocorre que essa visão extensiva da categoria de estratégia não deve nos fazer esquecer que Daniel Bensaïd trata antes de tudo da luta política e, mais precisamente, da luta pelo poder. E isso no quadro de sua história política: aquela da Ligue communiste [Liga Comunista] (seção francesa da IV Internacional), criada na esteira de Maio de 68, e da qual ele era um dos principais dirigentes. Dissolvida em 1973 pelo conselho de ministros, ela assumirá o nome de Ligue communiste révolutionnaire [Liga Comunista Revolucionária].

Assim, no final dos anos 1980, em Estratégia e partido, ele faz um balanço da elaboração estratégica da Liga sobre estas questões: “O estratégico, para nós, é o que define a base sobre a qual reunir, organizar e educar os militantes, é um projeto de derrubada do poder político burguês. Pois a revolução socialista começa por tal ato político.” [6]

Aqui, diferentes níveis de discussão se entrelaçam. Durante os poucos anos que se seguiram a 1968, a Liga desenvolveu um “vanguardismo” e um “hiper-leninismo” que se apoiava sobre uma certa análise de Maio de 68 percebido como “ensaio geral” da crise revolucionária que viria. O essencial então era construir com toda urgência o partido revolucionário, portador de uma estratégia – o que faltara em Maio de 68. O balanço dessa conjuntura foi feito desde a metade dos anos 70 [7].

Mas não é isso que está em jogo nas fórmulas citadas aqui. Elas visam algo muito amplo: de fato, o conjunto da história do movimento operário. Daniel Bensaïd propõe então duas grandes hipóteses estratégicas, às quais voltarei mais adiante. Alguns dirão que essas fórmulas são típicas de uma “tara” que marcou o movimento operário de tradição comunista (leninista): a fascinação pelo aparelho do Estado. A constatação demandaria longas discussões.

Por outro lado, é preciso assinalar que, nos anos 1970, Daniel Bensaïd (e outros na Liga e na extrema esquerda) tinha empreendido, especialmente sob a influência dos trabalhos de Michel Foucault [8], um retorno crítico sobre uma certa tradição marxista de análise do poder muito centrada somente no poder de estado. O que sem dúvidas teve consequências sobre a forma como se podia imaginar (sobre a base da experiência histórica) a organização do poder socialista, e, portanto, sobre a forma de formular um projeto estratégico de luta pelo poder. Mas isso não implicava de maneira alguma renunciar à referência a uma orientação que faz do Estado um problema central.

A categoria de estratégia tem uma história no movimento operário. Ela adquiriu um lugar central na virada dos anos 20, depois da Revolução de Outubro de 1917, e através dos debates dos primeiros anos da Internacional Comunista. Antes de 1914, observa Trótski, falava-se somente de tática – sindical ou político-parlamentar. O lugar ocupado pela categoria de estratégia vem sem dúvida em parte da terminologia militar, mas traduz sobretudo um período histórico que à época se chamava de a atualidade da revolução proletária (o que não quer dizer que a revolução seja possível todo dia…). Nesse quadro, “a estratégia revolucionária abrange todo um sistema combinado de ações que, em suas ligações e sua sucessão, bem como em seu desenvolvimento, devem levar o proletariado à conquista do poder” [9].

Esses debates visam, especialmente sobre a base da experiência da revolução alemã, definir uma estratégia revolucionária melhor adaptada aos países da Europa ocidental: na Alemanha, a crise tinha durado de 1918 a 1923 e era preciso considerar, além de outros aspectos, a existência de um forte movimento operário e de uma verdadeira tradição parlamentar. Trata-se, então, de articular o nível estratégico e os níveis táticos. Por exemplo, com a elaboração de um programa de reivindicações transitórias, de uma política de frente única, de uma perspectiva de governo operário que não fosse simples propaganda pela ditadura do proletariado e o poder dos sovietes, etc. É esse tipo de problemática que Trótski tenta sistematizar contra a política da Internacional stalinizada.

Daniel Bensaïd se inscreve explicitamente nessa tradição. De modo mais geral, uma particularidade da Liga dos anos 70 é tentar inscrever os debates estratégicos, que brotavam nessa época (Europa do Sul, América Latina…), na continuidade daqueles da Internacional Comunista dos anos 20, dedicando-se a um trabalho histórico importante sobre as revoluções alemã e espanhola. Esse vaivém entre o passado e o presente das tradições revolucionárias europeias, duplicado por uma bifurcação pela América Latina, é significativo do trabalho sobre estratégia realizado então pela Liga Comunista.

Gostaria de destacar aqui dois temas particularmente sistematizados por Daniel Bensaïd e que encontramos nos textos deste livro. A ruptura introduzida por Lênin, de um lado, sobre a questão da luta política, mais precisamente sobre o lugar do político; de outro lado, sobre a questão, já indicada, das hipóteses estratégicas.

Lênin e a política

Daniel Bensaïd gostava de citar a fórmula de Lênin: “a divisão em classes é, certamente, a base mais profunda do agrupamento político […] mas esse ‘no fim das contas’ é a luta política que estabelece” [10]. Mesmo sendo uma herança do marxismo, destaca a contribuição de Lênin sobre a especificidade da política [11].

Desde o Manifesto Comunista, Marx e Engels explicavam que o proletariado deve tomar o poder político, a fim de se erigir como classe dominante. E, à luz da Comuna de Paris, Marx insiste sobre o fato de que a criação de uma democracia similar à dos communards insurgentes supõe a quebra do aparelho burocrático de Estado. Ele se interessa, então, pela luta política, ao mesmo tempo em que permanece atento às novas formas de invenção democrática.

Mas ele o faz, para retomar a fórmula de Daniel Bensaïd, no quadro de um certo “determinismo sociológico”. O desenvolvimento industrial e o crescimento da classe operária, em número e consciência, portam um movimento histórico cuja dinâmica resolverá por si só o acesso do proletariado ao poder político. No fim do século, essa problemática vai se ampliar, segundo uma lógica gradualista, com o desenvolvimento da II Internacional, seus partidos de massa (especialmente na Alemanha) e a evolução rumo ao sufrágio universal. Algumas correntes críticas (Rosa Luxemburgo, o jovem Trótski) desconfiam do que acreditam ser um oportunismo, sem colocar em questão esse “determinismo sociológico”, e enfatizam o autodesenvolvimento do proletariado em força e em consciência através das mobilizações de massa (principalmente a greve geral).

A política do proletariado (e a política em si) é, então, por um lado, tomada em uma temporalidade linear e, por outro lado, aparece como um simples prolongamento orgânico do movimento econômico. A política é um simples acompanhamento do movimento histórico – do que se trata simplesmente de tomar consciência.

Lênin rompeu com essa abordagem, para o que nos interessa aqui, em dois pontos. Em primeiro lugar, a política não é um simples prolongamento da luta social e econômica, não é o produto de um simples conflito entre o operário e o patrão, mas do confronto do conjunto das classes na sociedade. Não somente a política apresenta uma certa autonomia em relação ao sócio-econômico, mas ela tem uma função estruturante do social.

A política tem, portanto, sua própria espessura social, suas próprias instituições e sua própria linguagem a se decodificar, que não é somente a sombra do econômico. E essa análise política da sociedade é um elemento determinante para compreender as possíveis dinâmicas do conjunto das lutas de classes. A especificação do nível político é, portanto, um elemento-chave do pensamento estratégico, que convém articular com o conceito de crise sistematizado por Lênin sob o choque da guerra de agosto de 1914.

Lênin não se contenta com criticar o gradualismo da II Internacional (em particular de Kautsky) para se empenhar em uma reflexão sobre o Estado que vai desembocar em O Estado e a revolução. Ele elabora igualmente o conceito de crise revolucionária, que vai se tornar um elemento da elaboração estratégica. Sem erigi-lo em modelo, ele fornece três indícios: os de cima não podem mais governar como antes, os de baixo não querem mais ser governados como antes, os do meio hesitam.

Como podemos ver, esses três critérios são fundamentalmente políticos: Lênin descreve, na verdade, uma crise política aberta do sistema de dominação. O que explica ele falar frequentemente em “crise nacional”, dado o lugar então ocupado pelo Estado nacional na dominação. Sobre essa base se desenvolve uma lógica de duplo poder. Tudo isso, então, não se enquadra mais em uma temporalidade linear que se desenvolve em um espaço homogêneo. Não somente a política tem uma temporalidade própria, mas a crise expressa um “tempo quebrado”, segundo uma fórmula de Daniel Bensaïd, em um espaço diferenciado também ele em crise (duplo poder). E nada está decidido de antemão: daí a importância dada por Lênin ao partido para resolver positivamente a crise.

Hipóteses estratégicas

Os trotskistas tem sido frequentemente criticados por terem erigido a experiência da Revolução Russa de 1917 em modelo estratégico. Se por vezes esse foi o caso, é preciso lembrar que já no começo dos anos 1930, Trótski, embora muito determinado a defender a política universal de Outubro de 17, evocava duas possibilidades para a Europa. Seja, como na Rússia de 1917, uma crise de colapso do Estado nacional, criando um vazio no qual se desenvolve rapidamente um duplo poder. Seja uma crise prolongada, mais lenta, em patamares, com o desenvolvimento de experiências de controle operário (nessa época os stalinistas se opunham a essa palavra de ordem) em torno dos quais era necessário desenvolver uma política de frente única e uma perspectiva de governo operário. Explicitamente, Trótski se lembra então da Alemanha dos anos 1920 e de sua crise prolongada.

Na realidade, não se trata de elaborar modelos normativos, mas hipóteses estratégicas. No primeiro caso, tudo acontece como se buscássemos definir uma norma que, de certa forma, reflete a “verdade” do processo histórico: um modelo a copiar. Enquanto uma hipótese é um guia para a ação, construído sobre a base das experiências passadas e suscetível de evoluir em função de novas experiências.

A hipótese estratégica depende de uma escolha estratégica, e não de um determinismo histórico. É uma das contribuições de Daniel Bensaïd ter tentado formular duas grandes hipóteses estratégicas: a greve geral insurrecional e a guerra revolucionária prolongada, cuja possibilidade havia sido percebida desde 1927 por Mao Tsé-Tung, em seu Por que o poder vermelho pode existir na China. Nesse último caso, o desenvolvimento do duplo poder toma uma forma territorial, através das zonas libertadas autoadministradas, e passa pelo desenvolvimento de um exército popular. Nessa perspectiva, a implantação em zonas rurais é decisiva, e a dimensão de “luta de libertação nacional” se torna importante. Nos anos 60, o Vietnã era o exemplo desse tipo de processo.

A hipótese da greve geral insurrecional apresenta um perfil mais “clássico” com relação à história do movimento operário europeu: o desenvolvimento de um duplo poder é principalmente urbano (e sociologicamente operário e popular), envolvendo uma lógica de enfrentamento mais rápida.

Isso não significa necessariamente um rápido surgimento de sovietes, como aconteceu em outubro de 1917, a crise poderia tomar um caráter prolongado, com uma articulação entre auto-organização, desenvolvimento do movimento operário e problemática de governo operário nas instituições parlamentares (em sentido amplo). Dito isso, a problemática estruturante é a da greve geral como forma de mobilização e de enfrentamento (na defesa, por exemplo, diante das ofensivas reacionárias), com as formas de organização militar de tipo urbano (milícias, etc).

É claro que assim apresentadas, essas hipóteses estão purificadas. Historicamente, elas existiram sob diversas variantes, algumas delas carregando traços de uma e de outra. Mas, nos anos 70, elas se cristalizaram através de discussões reais (em termos de escolhas de construção e de orientações táticas) com outras correntes revolucionárias ou “reformistas de esquerda”.

Nesse segundo caso, tratava-se frequentemente de correntes críticas, no interior dos partidos comunistas (especialmente na Itália e na Espanha), mas também de certos partidos socialistas. Elas defendiam uma estratégia gradualista de luta pelo poder articulando comitês do tipo conselho operário e popular com o parlamento, mas fazendo deste último o centro de gravidade do poder político. Os debates sobre a guerra revolucionária prolongada se realizavam sobretudo com correntes da esquerda revolucionária latino-americana, por vezes engajadas na luta armada, como o MIR [Movimento de Esquerda Revolucionária] no Chile (organização “amiga” da Liga), o PRT-ERP (seção argentina da IV Internacional) ou os sandinistas na Nicarágua.

A propósito do “eclipse do debate estratégico”

Durante toda a década passada, Daniel Bensaïd enfatizou o “eclipse do debate estratégico”, surgido já no começo dos anos 80. Assim, o capítulo IV do Elogio da política profana se intitula: “O eclipse da política”, e ele se divide em “uma crise da historicidade”, “o grau zero da estratégia”, “a teoria em migalhas”… Na França, as discussões se acelerariam no começo dos anos 2000, especialmente na sequência dos dossiês consagrados pela revista da Liga, Critique Communiste (nº 179 e 180), aos debates sobre a estratégia revolucionária [12]. Daniel Bensaïd publicou vários textos nos quais se misturam um retorno sobre a história dos debates estratégicos e considerações sobre a atualidade. É sobre estes últimos pontos que vou me referir, avançando alguns elementos de discussão.

Daniel Bensaïd assinala então que o campo estratégico não cessou de se dilatar no tempo e no espaço. Mais do que no passado, é preciso distinguir uma estratégia global (à escala mundial) e uma estratégia “restrita, a luta pela tomada do poder em um determinado território”, desenhando o que ele chama de uma “escala móvel de espaços estratégicos”. Dito isso, mesmo que os Estados nacionais estejam enfraquecidos pela mundialização, o nível nacional, que estrutura as relações de classe e articula um território a um Estado, continua sendo um elo decisivo.

É verdade, mas ainda permanecem os efeitos da crise dos Estados-nação e dos territórios. Há muito tempo Daniel Bensaïd analisa precisamente tais efeitos [13], mostrando que não se trata de uma crise conjuntural, mas de uma crise estrutural dos elementos que moldaram a modernidade em torno das categorias de território, de soberania e de poder político. Ele também observa que essa crise atingiu igualmente em cheio o movimento operário (reformista ou revolucionário) que, desde o século XIX, tem se construído fundamentalmente – e inevitavelmente – ao redor de tais categorias.

À crise advinda da evolução “sociológica” do salariato, vem a se somar aquela ligada à crise dos territórios políticos. Para ser mais precisos, digamos que à crise dos referentes políticos baseados na marginalização das grandes concentrações sócio-econômicas se junta a crise do território nacional como quadro de exercício da cidadania. Essa dupla crise, que multiplica as consequências do balanço do stalinismo, teve efeitos devastadores sobre as formas de organização e de representação política do movimento operário. E, portanto, sobre suas capacidades de recomposição.

Daniel Bensaïd não pensava que um discurso sobre o cosmopolitismo pudesse resolver o problema. Podemos nos lamentar por ele não ter relacionado mais claramente esses novos dados históricos com o que ele por vezes chama de “crise da razão estratégica”, e de modo mais geral com as grandes periodizações históricas. Assim, em 2007, em Tempo histórico e ritmos políticos, enfatizando que os anos 80 representaram uma “derrota histórica”, ele se pergunta: “Derrota histórica das políticas de emancipação ou simples alternância dos ciclos de mobilização?”. Formulada dessa maneira, a questão parece muito simplificada. Seria conveniente proceder a uma dupla periodização: uma dos ciclos de mobilização, outra do período histórico em sentido mais amplo.

Desde os anos 1980, houve sem dúvida uma alternância dos ciclos de mobilização. Assim, 1995 na França, 1999 com o fórum social de Seattle, 2001 com o primeiro em Porto Alegre… Mas essas mobilizações (e seus balanços) mostraram que, ao menos depois da queda do Muro de Berlim, cristalizou-se um novo período histórico que encerra o do curto século XX; ou seja, o ciclo histórico aberto pela Revolução Russa de outubro de 1917.

Não se trata, como teme Daniel Bensaïd nesse mesmo texto, “de amarrar em uma mesma temporalidade histórica uma pluralidade de tempos sociais discordantes” e, em nome de um determinismo histórico de sentido único, apagar o presente como “pluralidade de possíveis”. Simplesmente nós não estamos mais nos anos 60-70, quando parecia possível restabelecer, para trabalhar com uma problemática de emancipação, uma ligação direta, de certa maneira, com as tradições legadas de Outubro de 17 e do movimento revolucionário dos anos 20.

De novo sobre a política

Falar em eclipse do debate estratégico não é então fazer acreditar que, uma vez reaparecido o sol, os grandes dispositivos estratégicos que se construíram na história possam voltar como tais. Esse não foi o propósito de Daniel Bensaïd. Para ele, somente novas experiências históricas permitirão o avanço na elaboração estratégica. Mas, nesse meio tempo, longe de sugerir que podemos recomeçar do zero, é preciso defender alguns princípios estratégicos adquiridos, especialmente a problemática da crise revolucionária e do duplo poder.

Podemos mesmo acrescentar, como Daniel Bensaïd em Elogio da política profana, que se foi legítimo ter abandonado a fórmula da “ditadura do proletariado”, por conta de sua conotação histórica, não podemos contornar o problema de um regime de exceção, ligado enquanto tal à ideia de revolução. Certo. Contudo, o problema é inerente a todas as revoluções modernas, e não somente à “revolução proletária”.

Contudo, justamente, o que a ditadura do proletariado significava para nós nos anos 70-80 não era em primeiro lugar a ideia de “um regime de exceção”. Ela funcionava como uma “categoria estratégica”, que permitia especificar uma estratégia própria à “revolução proletária”, estruturada principalmente ao redor de uma democracia de conselhos operários, como forma enfim encontrada do “poder proletário”. Naturalmente, outras instituições políticas poderiam existir, mas tais conselhos seriam a ossatura do poder político. Posteriormente, Daniel Bensaïd se pronunciou, com razão, a favor da perspectiva de uma dupla assembleia: uma eleita na base do sufrágio universal, outra eleita na base de uma representação do social. Essas formulações começaram a aparecer (nele e na Liga) bastante cedo, durante os anos 90.

Entretanto, não é suficiente mudar as palavras: a perspectiva se abre sobre outras questões; por exemplo o lugar preciso do sufrágio universal; ou ainda uma perspectiva de democratização radical do poder político [14]. De fato, o que se sente aqui é a necessidade de rearticular certos elementos estratégicos. Sem tentar elaborar um catálogo, eu sublinharia apenas duas ideias.

Em primeiro lugar, existem (há muitos anos…) discussões sobre alguns fundamentos programáticos da tradição marxista radical (revolucionária e além...) que convém tratar como tais. A referência à estratégia não é suficiente. Isso é evidente no que diz respeito à democracia. É possível articular uma estratégia sobre a base de uma perspectiva de democracia radical ou de uma perspectiva de poder soviético; mas é preciso optar por uma destas abordagens.

Em segundo lugar, há uma importante diferença entre a recordação de alguns princípios e a elaboração de uma hipótese estratégica que seja um guia para a ação, por exemplo à maneira como a hipótese da greve geral insurrecional funcionava, tendo uma funcionalidade para a Liga nos anos 70. É uma dificuldade “objetiva” para os revolucionários não dispor de uma tal orientação, que permita articular o momento presente a uma perspectiva mais geral. É necessário, sem dúvida, aceitar isso, mas estando consciente das várias contradições que daí resultam.

“Os dias que se seguem às grandes derrotas são férteis em cultivos e efervescências utópicas. Esse foi o caso sob a Restauração, e é também o caso nas últimas décadas, sob os golpes da ascensão liberal. Quando o necessário e o possível não se tocam mais, o tempo se volta para a utopia”, escreve Daniel Bensaïd [15]. “Mudar o mundo sem tomar o poder” [16]: a fórmula de John Holloway (e seu eco no movimento altermundialista), que Daniel Bensaïd critica, exprime bem essas dificuldades. É a necessidade mesma da luta política que é recusada. Mas não podemos esquecer que a década passada também foi marcada pelo forte impulso de um radicalismo “social” e “movimentista”, que dificilmente encontra o caminho da luta política.

Naturalmente, isso remete a uma situação “objetiva”, e a evolução do Partido dos Trabalhadores brasileiro e do Partido da Reconstrução Comunista italiano não melhorou a situação.

Aqui, mais que o Lênin da crise revolucionária, é preciso citar o Lênin da especificidade da política. Pode-se muito bem apagar a luta política e fazer propaganda sobre a estratégia revolucionária. O fato é que a política (revolucionária) não pode se contentar com expressar a radicalidade dos movimentos sociais. Ela deve achar as próprias vias para, por um lado, investir sobre o terreno propriamente político e, por outro, estimular a cristalização de correntes políticas radicais no terreno político. Contudo, sentimos a atual ausência de uma hipótese estratégica articulada que permita colocar em prática uma problemática como essa.

Um “partido-estrategista”

Quis exemplificar algumas dificuldades, na situação atual, para desdobrar um discurso estratégico, o que o estilo inflamado de Daniel Bensaïd por vezes atenua. Outros exemplos poderiam ser levantados. Mas permanece a fecundidade do método: para pensar a política, mas também, de modo mais geral, para esclarecer o estatuto do marxismo como teoria crítica.

Para lutar contra um marxismo “cientificista” e/ou “economicista”, vários autores frequentemente “ontologizaram” ou “substancializaram” elementos do social que seriam, por si sós, portadores da crítica e da emancipação: o proletariado como sujeito latente da história, o trabalho como quadro de realização da essência humana, etc. Como explica com razão Henri Maler, é um “conceito ontológico do possível que neutraliza seu conceito estratégico” [17]. O possível já está lá, como uma forma social em suspensão que só pede para se realizar.

Nada disso se encontra em Daniel Bensaïd: ele recusa todo substancialismo, em prol de uma abordagem relacional do social. Como escreveu Marx nos Grundrisse: “A sociedade não é composta por indivíduos, ela expressa a soma de relações, condições, etc., nas quais se encontram esses indivíduos uns em relação aos outros” [18]. 

Essa problemática relacional do conflito social é a outra face de uma abordagem estratégico. Como já assinalei no começo deste artigo, se não existe classe sujeito, existem realmente relações de dominação e de exploração que geram conflitos de classe.

Certamente, constata Bensaïd em Elogio da política profana, as classes e o capitalismo são o que os sociólogos chamam de “construtos” ou de “classes prováveis”, segundo Bourdieu. “Mas sobre o que repousa a validade ou a pertinência de sua ‘construção’? Por que ‘provável’ mais do que ‘improvável’?” [19]. Insistir unilateralmente sobre a construção conceitual, com a finalidade de evitar uma abordagem essencialista, escamoteia uma questão simples, mas decisiva: a da análise das relações sociais que, nos conflitos que elas geram, produzem e reproduzem o “material social”, o que permite a construção das classes, e não uma outra forma social.

É com esse tipo de problemática que Daniel Bensaïd nos convida a revisitar uma série de problemas da tradição marxista. Terminarei com a questão espinhosa do partido como vanguarda, suposto como o depositário dos interesses do proletariado, visão que evidentemente convém colocar em questão: 

“Mas isso não obriga de forma alguma a renunciar também à ideia de um partido-estrategista, engajado na incerteza da batalha, imerso na inconstância das relações de força, tendo de tomar decisões em termos de uma aposta fundamentada, sem garantia de verdade científica ou histórica, nem, é claro, de vontade divina. Na medida em que a relação de tal partido com os interesses sociais se torna irredutivelmente problemática, o pluralismo político (mas também a pluralidade de atores sociais) se encontra fundado em princípio.” [20]

Notas

[1] Daniel Bensaïd, Éloge de la politique profane, Paris, Albin Michel, 2008.

[2] A política como arte estratégica, de Bensaïd, livro para o qual este texto de Antoine Artous originalmente serve como introdução. (N.T.)

[3] Daniel Bensaïd, Marx l’intempestif, Paris, Fayard, 1995, p. 50 e 297.

[4] Disponível em francês em: Moment utopique et refondation stratégique https://www.contretemps.eu/moment-utopique-refondation-strategique-bensaid/ (N.T.) 

[5] Daniel Bensaïd, Un Monde à changer, mouvements et stratégies, Paris, Textuel, 2002, p. 95.

[6] Daniel Bensaïd, Stratégie et parti, Montreuil, La Brèche, 1987, p. 8.

[7] Artous faz menção aqui a um artigo de sua autoria com Daniel Bensaïd, de 1976, sobre o leninismo e a criação da Liga Comunista, e que pode ser lido em francês em: Que faire? et la création de la Ligue communiste https://www.contretemps.eu/leninisme-creation-ligue-communiste-bensaid-artous/ (N.T.)

[8] Ver: Daniel Bensaïd, La Révolution et le pouvoir, Paris, Stock, 1976.

[9] Leon Trótski, L’Internationale communiste après Lénine, Paris, Puf, 1969, t. 1, p. 171.

[10] Lênin, Les Tâches de la jeunesse révolutionnaire, 1903, Œuvres, Paris, Éditions sociales, 1966, t. 7, p. 470.

[11] Na edição do texto em espanhol, a citação de Lênin vem inteira e talvez ajude a esclarecer: “la división en clases constituye, naturalmente, la base más profunda del agrupamiento político y en resumidas cuentas, determina siempre, sin duda, dicho agrupamiento. Pero esa base profunda sólo se revela a medida que avanza el desarrollo histórico y aumenta el grado de conciencia de los participantes y artífices de este desarrollo. Ese ‘resumen de cuentas’ lo hace únicamente la lucha política”. (Antoine Artous, “Daniel Bensaïd o la política como arte estratégico” (prólogo). In: Daniel Bensaïd. La política como arte estrategico. Trad. Redacción Viento Sur y Alfonso Serrano. Madrid: Ed. Los Libros de Viento Sur e La Oveja Negra, 2013, p. 13). (N.T.).

[12] A maior parte dos artigos pode ser encontrada em europe-solidaire.org.

[13] Ao menos desde Le Pari mélancolique [A aposta melancólica], Daniel Bensaïd, Paris, Fayard, 1997.

[14] Sobre isso, me permito fazer referência a Antoine Artous, Démocratie, Citoyenneté, Émancipation, Paris, Syllepse, 2010.

[15] Daniel Bensaïd, Éloge de la politique profane, op. cit., p. 179. Seria preciso discutir mais em detalhe a lista de autores colocados todos num mesmo saco.

[16] O texto publicado no site Contretemps remete este trecho ao link: https://www.contretemps.eu/revolution-pouvoir-holloway-bensaid/. (N.T.)

[17] Henri Maler, Convoiter l’impossible, Paris, Albin Michel, 1995.

[18] Karl Marx, Grundrisse, Paris, La Pléiade, t. 2, p. 281.

[19] Daniel Bensaïd, Éloge de la politique profane, op. cit., p. 336.

[20] Ibid., p. 337.

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