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Revoltas são laboratório de resgate, "tempo de libertação"

Em seu novo livro, a filósofa italiana Donatella Di Cesare vê nos protestos atuais um “laboratório de resgate”

· Vale a pena ler,Formação

Resenha do livro da filósofa Donatela di Cesare O tempo da revolta (Torino: Bollati Boringhieri, 2020).

Luciano Canfora, Corriere dela Sera, 23 de novembro de 2020

Donatella Di Cesare escreveu um livro de poesia: “Il tempo della rivolta” [O tempo da revolta] (Ed. Bollati Boringhieri). A autora repensa, em uma modalidade lírico-apocalíptica, uma questão antiquíssima: a “psicologia das multidões”, nas palavras do célebre livro de Gustave Le Bon (1895). O seu ponto de vista, nesse reavivamento da explosão violenta das multidões (“as chamadas multidões criminosas” do livro de Le Bon), é que, no tempo presente, a explosão (a “revolta”, justamente) seria característica dos sujeitos marginais ou marginalizados.

Por isso, ela insiste muito na contraposição entre encastelamento, como ela escreve, “estadocêntrico” da maioria e as explosões “anárquicas” dos marginais. Explosões que não podem ser explicadas apenas com “os motivos contingentes” que parecem desencadeá-las, mas que expressam “um mal-estar impreciso, um desconforto vago mas insistente”, revelador de “todas as expectativas desiludidas”.

Por isso, a autora evoca “os insurgentes que atiravam contra os relógios” – fenômeno bem conhecido de inconcludente “ludismo” – e sugere também (e aqui mais do que nunca ela entra no campo da poesia) que “a revolta beira a festa”.

Na página final, capta-se quase um elogio dos Saturnais romanos, durante os quais “as regras não são simplesmente anuladas, mas se despedaça aquele nexo entre meio e fim que demarca a habitual produtividade dos dias” e “liberta-se o agir da economia”. Desse modo – conclui ela – a revolta “convida a um outro modo de habitar o tempo” e, por isso, é “laboratório de resgate, tempo de libertação”.

A sintomatologia que esse livro quer descrever estava bem delineada em grandes clássicos: os capítulos de Manzoni sobre a revolta milanesa (o assalto aos fornos que excita Renzo Tramaglino à ação rebelde); ou os capítulos de Tucídides sobre o enlouquecimento moral consequente ao contágio da peste e assim por diante.

Toda generalização precisaria de uma exemplificação concreta: não por acaso, os grandes que acabamos de recordar partem de um caso concreto e, ao descrevê-lo, fazem emergir a sintomatologia da “explosão” anárquica (por norma, inevitavelmente efêmera).

A história até aqui conhecida é pontilhada de “revoltas”, cujas características são justamente aquelas resumidas nesse livro: a precipitação em forma violenta e aparentemente libertadora de um descontentamento que se acende a partir de um “pretexto” individual e que, por isso, o transcende.

A autora se pergunta também se, no futuro próximo, quem levará a melhor será “a parcial satisfação das demandas” (da qual brotou a revolta) ou se, em vez disso, “as lutas se difundirão e se radicalizarão”; e delineia uma encruzilhada: entre “raiva cega sem amanhã” e “centelha destinada a pegar fogo”.

Vem à mente o diálogo (real ou imaginário) entre Luís XVI e o seu ministro no fatídico 1789: o rei se pergunta se explodiu uma “revolta”, e lhe respondem: “Não, é uma revolução”.

Muito raramente, as revoltas se tornam revoluções. No máximo, o problema é: em que medida – e por que – as revoluções se tornam cada vez menos possíveis, enquanto as revoltas explodem de modo cada vez mais frequente (com resultados principalmente nulos).

Muitos fatores contribuíram com essa linha de tendência do desenvolvimento histórico: no século XIX, depois da “primavera dos povos” de 1848, no país mais atingido por revoltas transbordantes em revoluções (a França, na realidade, principalmente a sua capital), o poder político buscou ampliar desmedidamente as ruas para impossibilitar as barricadas (o prefeito Haussmann). Era uma resposta “técnica” ao mal-estar social e ao seu resultado político.

A máquina estatal tornou-se cada vez mais forte desde então: a última revolução europeia foi o Outubro de 1917 em São Petersburgo, que foi o resultado não só de uma notável direção militar da insurreição, mas também (e sobretudo) de uma série de circunstâncias concomitantes (desgosto de massa pela guerra desastrosa etc.).

Mas já a revolta espartaquista de Berlim (janeiro de 1919) fracassou em poucos dias e não conseguiu assumir as características da revolução em nenhum momento. Nos 20 anos entre 1927 e 1949, em vez disso, uma revolução de um tipo totalmente diferente (lenta e capilar) se produziu em um mundo (a China) muito diferente daquela emblematicamente representado por Paris, São Petersburgo, Berlim. Sinal da inevitável mutação do próprio conceito de “revolução”.

A questão aqui posta – se e quando uma revolta se torna revolução – foi abordada com maestria por um grande historiador, Edward Hallett Carr, no único texto em que ele se concedeu uma reflexão de caráter teórico (“Que é História?”, Ed. Paz e Terra), naquele capítulo inicial centrado no tema: quando um “fato” (um dos bilhões de “fatos” que ocorrem na realidade) se torna um “fato histórico”? E deu o exemplo dos destinos historiográficos da morte violenta (uma “explosão” também, de uma multidão enfurecida) de um vendedor de pão de gengibre em Stalybridge Wakes em 1850.

A outra questão que se deveria levar em consideração quando se estuda o rebelismo que permeia o mundo atual (em igual medida que nos milênios anteriores da história humana conhecida) é se o desembarque decepcionante das “revoluções” do século XX não contribuiu com a multiplicação do rebelismo fatalmente de fôlego curto (e cada vez mais violento).

É difícil avaliar quão enganoso é o raciocínio daqueles que preveem que, mesmo assim, um novo ciclo de racionalidade revolucionária pode se abrir depois do esgotamento do rebelismo estéril, a ponto de deixar para trás a condição atual: em que – como escreve a autora – “o capitalismo triunfa sobre os destroços das utopias”.

Maquiavel ensina que o “círculo em que todas as repúblicas foram e são governadas” não pode se replicar indefinidamente, “porque – explica – quase nenhuma república pode ser de tanta vida que possa passar muitas vezes por essas mutações e ficar de pé”.

Luciano Canfora é historiador italiano, professor da Universidade de Bari. Reproduzido de IHU-Unisinos. Tradução de Moisés Sbardelotto.

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